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Granfondo – Aventuras de bicicleta na Itália

Por Gustavo Souto Maior (engenheiro, ciclista tardio mas apaixonado)

Como eu poderia imaginar que uma viagem a Copenhague pudesse modificar radicalmente a minha vida? Em dezembro de 2009 eu integrava a delegação brasileira que participou da Conferência do Clima (COP-15). Passei 15 dias na cidade, entupida de gente, presentes delegações de 192 países, toda a rede hoteleira absolutamente lotada. Mas o que mais me impressionou na viagem não foram os debates, as exposições, tudo o que rolava no Bella Center, estrutura montada para abrigar a Conferência. O que mais me chamou a atenção foi que não vi um único congestionamento na cidade, uma única “fila dupla” (agora até “tripla” aqui em Brasília…) de carros estacionados nas ruas de Copenhague. Qual a mágica? Muito simples: um sistema de transporte público fantástico (trem, metrô e ônibus), numa cidade onde 40% da população se desloca por meio de… bicicletas! E nas ciclovias de Copenhague circulam mulheres e homens, ricos e pobres, velhos e jovens, operários e executivos.

Voltei de Copenhague com uma decisão na mala: quando chegasse ao Brasil compraria uma bicicleta e voltaria a pedalar, algo que não fazia há mais de 25 anos…

E aí teve início uma verdadeira revolução na minha vida, já aos 55 anos de idade. Primeiro, comprei uma bicicletinha bem simples, dessas que são vendidas em supermercados. Hoje são três bicicletas, todas equipadas com componentes de ponta. Inicialmente pedaladas de 15 km por dia, duas/três vezes por semana. Hoje em média 1.000/1.200 km de pedal por mês, mais academia (aulas de spinning), nutricionista, planilhas de treino, giros praticamente diários.

Mas a revolução não parou por aí. Uma das primeiras lojas de bicicletas que conheci em Brasília foi a Lazzaretti, cujo dono, Romolo Lazzaretti, treinador da equipe brasileira paraolímpica de ciclismo, é de família tradicional no ciclismo italiano, proprietária de uma das mais antigas fábricas de bicicleta italianas, fundada em 1916. E, de uma bela amizade com o Romolo, surgiu o que chamo o ápice da minha breve carreira de ciclista: a participação em Granfondos, provas amadoras que acontecem por toda a Itália e contam com o envolvimento de milhares de ciclistas e uma organização de fazer inveja (em tempos de Copa do Mundo no Brasil…): apoio mecânico, alimentação, serviço médico, feiras de material ciclístico, etc., fora os visuais cinematográficos dos percursos.

Primeiro me aventurei no Granfondo Roma, em outubro de 2013. Já imaginaram 5.500 ciclistas concentrados em frente ao Coliseu? É de arrepiar… Junto com mais dezenove ciclistas de Brasília, participei dessa aventura, em um dos maiores eventos da modalidade no mundo, que ocorre, sempre em outubro, na capital italiana. Ansiedade e empolgação, nesse caso, se misturam em proporções superlativas. Um maratonista sonha em correr a Maratona de Nova York ou a São Silvestre. Para o ciclista amador, o Granfondo Roma pode ser a cereja do bolo. A Itália é o berço do ciclismo, de onde saíram os melhores do mundo. E Roma… Com certeza, uma oportunidade única de conhecer melhor o ciclismo, em uma das cidades mais belas do globo. Sem dúvida, uma experiência inesquecível, em todos os sentidos.

Mas as aventuras ciclísticas não pararam em Roma. Incentivado novamente pelo Romolo, decidi participar, em maio, do Granfondo Nove Colli. É o Granfondo mais antigo realizado na Itália, esta última foi a sua 44ª edição. Se você gosta de pedalar, já tem um preparo razoável e quer “respirar” ciclismo, bicicletas, e conhecer uma região belíssima, essa é a sua oportunidade. Com largada e chegada na charmosa Cesenatico, região da Emilia Romagna, terra natal de Marco Pantani, ciclista mais reverenciado na Itália e considerado um dos melhores de toda a história, é uma prova extremamente bem organizada. São duas as alternativas de percurso: o longo, com 205 km, com nove morros a serem superados (entenderam a razão do nome do Granfondo?), e o curto, com 133 km, com “apenas” quatro morros.

A estrutura de Nove Colli envolve 13 pontos de apoio médico com ambulância, 10 pontos de abastecimento de água/alimentação e 12 pontos de apoio mecânico, ao longo de ambos os percursos. Todos os inscritos recebem um chip para cronometragem de seus tempos e ao final ganham uma bela medalha de participação.

Foto: Acervo pessoal Gustavo Souto Maior

Foto: Acervo pessoal Gustavo Souto Maior

Muito bem. Agora alguém pode perguntar: por que tanta “estrutura”, numa mera prova de bicicleta, que nem conta pontos para campeonato algum? A resposta é dada a partir de outra pergunta: sabem quantos ciclistas alinharam na largada da Nove Colli? 12.000 ciclistas!! Sim, 12.000, nunca havia visto tanta bicicleta na minha vida! São quilômetros de ciclistas alinhados, num cenário que jamais vou esquecer. Lindo, empolgante, eletrizante, emocionante. Os números de Nove Colli são realmente impressionantes.

Mas a intenção nesse tipo de prova é não só estimular a prática do ciclismo, mas também incentivar o cicloturismo e criar entre os participantes um clima de amizade e união, tendo o Granfondo como pano de fundo. E assim aconteceu. Nessas duas oportunidades fiz ótimas amizades e interagi com diversos ciclistas de outras nacionalidades (principalmente italianos, claro). E a partir de Roma surgiu a “Squadra Lazzaretti”, grupo de ciclistas brasileiros que se conheceram indo para Roma, cuja amizade e camaradagem se consolidou em Cesenatico, formando um grupo de amigos que pedalam juntos sempre que possível e se encontram para trocar experiências em torno do ciclismo – e também para degustar bons vinhos italianos!

Cabe também ressaltar a estrutura montada pela Lazzaretti para dar o máximo de conforto aos ciclistas brasileiros que participaram dos dois Granfondos, Roma e Nove Colli. A começar pelos hotéis, sempre muito bem localizados (o da Nove Colli com uma vista deslumbrante para o mar Adriático) e com espaços específicos para guardar as bicicletas e fazer todo tipo de ajuste mecânico necessário. Outro ponto de suma importância: não precisa levar bicicleta na mala! Sim, isso é uma enorme comodidade, pois, se carregar malas em avião já é algo não muito agradável, imaginem carregar bicicletas. Em ambos os Granfondos foram colocadas à disposição bicicletas excelentes (marca Lazzaretti, em Roma, e Pinarello, em Cesenatico), mecânicos à disposição para se fazerem os ajustes e consertos necessários. Fora isso, antes das provas foram realizados treinos para reconhecimento de parte dos percursos, tendo sempre à frente um experiente ciclista italiano como guia.

E como a ideia não é só pedalar, mas também conhecer a região do Granfondo, sua cultura, sua gastronomia, sua história, duas vans são colocadas à disposição dos ciclistas para passeios durante o dia e saídas noturnas. Assim conheci Maranello (a terra da Ferrari), Bolonha e Rimini. E não foram poucos os vinhos e massas de excelente qualidade que tive o prazer de saborear.

Granfondo, uma aventura que recomendo a todos os que estão pedalando. Bicicleta vicia, e Granfondo também!


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  1. Claudio de Oliveira

    Parabens Gustavo, tenho 43 anos e comecei no ciclismo a 3 anos depois de ter ficado mais de 20 sem pedalar, espero algum dia tambem fazer uma aventura dessas.


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