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O tempo é amigo da contemplação

Por Jâneo Manoel Venturini

Planejo-me para mais um pedal. Tempo armando-se para chuva. O que constantemente fazia com que pensasse em desistir da minha ida para casa de bicicleta no feriadão de Tiradentes. Em alguns momentos veio o conforto do ônibus que me levaria até minha casa, a poltrona macia e o tempo de meia hora à quarenta minutos que me distanciavam do lugar onde estava para onde iria.

Mas ponderava para tomar minha decisão também um bom tempo (duas semanas) que não pedalava um trajeto maior, que não subia a Serra de Santa Maria. Bom, decidi seguir com o plano e ir pedalando para casa. Meu irmão levaria as malas de ônibus. Arrumei minha mochila, água e um chocolate. E segui. Quando estava saindo, começou uma fina garoa, que não me intimidou. Fez-me seguir mais ainda.

Saí da cidade, que estava vazia, poucos carros, ruas seguras. Comecei ao pé do morro. Já havia por umas três vezes feito o percurso. Mas como é interessante cada vez que você passa descobre coisas novas, se estiver atento, observar, pedalar pelo simples prazer de seguir, de ir, sem correria, sem prazo, sem relógio.

Naquele dia a BR 158, estava mais calma do que o normal. Havia sim momentos de movimentação em longas filas de carros e veículos pesados. Mas eram momentos. Houve trechos que fiz do percurso da serra, totalmente ao silencio. Algo atípico, que logo me chamou atenção. Perceber a grandeza do silencio da natureza é inestimável. Reduz-me por vezes a insignificância. Isso é belo. Coloca-me em contato, religa-me novamente com o nosso ser.

As curvas sinuosas aos poucos iam me levando ao alto. Nem cansadas me deixaram. Comecei com puxadas rápidas nos pedais, depois percebi que não precisava ter pressa.

A fina chuva que caia, não chegava molhar. O suor, não de cansaço, mas da naturalidade do corpo, misturava-se a garoa. Sentia o salgado aos lábios. E pude perceber como é bom sentir as coisas. Andar de bicicleta faz com que perceba detalhes nunca antes percebidos por mim. Ou que talvez, até percebo, mas de maneira muito distraída.

Enquanto subia a serra, observando os veículos, fiquei pensando o que aqueles que os conduziam pensavam quando passavam por mim. Tenho certeza que havia os que se perguntavam para si o porquê de subir uma serra de bicicleta e ainda em dia de chuva. Porém, alguns também com certeza pensaram na possibilidade de estarem no meu lugar vivendo aquela experiência. Estes últimos devem ter pensado na liberdade, na sensação de bem estar, que tal situação proporcionaria, pois isso na maioria das vezes é possibilitado pela bicicleta.

As curvas sinuosas aos poucos iam me levando ao alto. Nem cansadas me deixaram. Comecei com puxadas rápidas nos pedais, depois percebi que não precisava ter pressa. Pegar chuva de qualquer forma pegaria. Dediquei-me a contemplar, então, a paisagem que ia vivendo.

E eis que cheguei à famosa ponte da Serra: a Garganta do Diabo, que alguns rebatizaram pelo nome de Vale do Menino Deus. Bom, de qualquer forma é uma obra muito bonita, desafio para a época e para as pessoas que a construíram. De lá, tem-se uma visão parcial de um dos bairros de Santa Maria, o Campestre. A ponte é o limite do municípios de Itaara e Santa Maria.

Decidi que filmaria desta vez minha passagem de bike pela ponte. Tirei algumas fotos e depois comecei a gravar minha tranquila ida pela ponte.

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Pouco movimento de veículos naquele momento, deu para aproveitar e observar bem a natureza, a mata, os morros em volta da obra arquitetônica, até mesmo um fina neblina. Bem diferente de um dia normal, o qual você deve passar rápido ou conforme o fluxo dos veículos para evitar que se forme fila atrás do seu veículo, a bicicleta.

Engraçado, logo que passei, duas filas uma descendo e outra subindo acabaram passando pela ponte. Talvez, eu tenha tido sorte. Esperei um pouco para segui, pois havia um trecho a frente que é preciso subir na estrada de rodagem para andar, pois não há acostamento. Para mim o pior lugar de pedalar na serra. Os veículos passam muito perto, você pode cair devido às deformações no asfalto, e, o vácuo pode ser perigoso.

Demorei mais tempo para subir a serra, diante das outras vezes que realizei o percurso. Mas foi proposital. Fiz paradas e contemplei. A primeira vez que subi (em 2014) demorou mais ainda devido a minha falta de experiência, preparo físico e bike.

O restante do pedal passando pela cidade de Itaara e chegando ao meu destino Val de Serra, distrito de Júlio de Castilhos, foi tranquilo. Vim observando tudo, com calma sem pressa, alterando ritmos. Nas outras vezes, creio que devido ao ritmo mais acelerado e talvez a preocupação do tempo (não o climático) tenha chegado cansado em casa. Desta vez cheguei sem estar nem um pouco cansado. Logo faria de novo o mesmo percurso, sem problemas, sem pausa.

Autor: Jâneo Manoel
Dia: 21 de abril de 2016

Para acompanhar a leitura, uma música:

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