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Porto Alegre a Colônia Del Sacramento: um desafio de 898 km e 11 dias de pedal

Por Sebastião Filho

Costa Uruguaia (01 a 11.10.2015)

Porto Alegre a Colônia Del Sacramento: um desafio de 898 km e 11 dias de pedal

Para muitos ciclistas pode não ser algo extraordinário, mas, para nós, foi uma odisséia intempéries (muito frio, vento, chuva), encanto e beleza. País de belas paisagens, boa gastronomia e dos vinhos tannat (rico em resveratrol: anti oxidante que reduz o mal colesterol, dentre outros benefícios). Sem falar na aparente segurança e num povo hospitaleiro e educado.

O relato cicloturístico do simpático casal de Santa Catarina, Aline Maria Mafra e Ari Laércio Boehme, foi nossa principal fonte de inspiração para realizamos esta aventura (https://bikea2.wordpress.com/2014/04/09/uruguai-do-chui-a-montevideu/).

Compartilhei a intenção com Vera Ferreira no início deste ano, sem qualquer pretensão de materializar esta empreitada no curto prazo. Vera é neta do famoso cangaceiro Lampião e coordenadora do Grupo Pedal do Forte. Viajei no mês de agosto e pra surpresa minha ela estruturou o desafio. Inicialmente não iria participar, em função do impacto orçamentário de duas viagens seguidas, mas…

No dia 30.09.2015 embarcaram em Aracaju com destino a Porto Alegre Vera Ferreira, Suzana Passos, Stella e Francisco Dantas (Chico). No dia seguinte juntei-me ao grupo. Fernando Loureiro e Nelson Mota, nosso anjo protetor do carro de apoio (alugamos um Fiat Strada), ambos de Porto Alegre, completaram o grupo expedicionário. A montagem e os ajustes finais foram feitos dia 31.09.2015 em Dudu Bike (Bairro Tristeza), onde fomos super bem atendidos por Marcelo e Dudu.

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1º dia – Porto Alegre / Camaquã – (148 km)

O primeiro dia de pedal começou com elevado nível de stress na saída de Porto Alegre, em função do roteiro (saímos do Bairro Ipanema) e do trânsito congestionado e não muito educado no centro da capital. Na verdade, foi um percurso pouco relaxante: enfrentamos muito vento, tráfego intenso na BR 116, acostamento “padrão nacional”, acompanhado de um tombo com alguns arranhões leves. Chegamos ao entardecer e nos hospedamos no Hotel Bartz.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Camaquã

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2º dia – Camaquã / Pelotas (115 km)

Outro dia desafiador: frio, muito frio (começamos o pedal com 11°C. É bom lembrar que somos do Nordeste), chuva, trovão, relâmpagos, mais vento e acostamento em pior estado de conservação em relação ao trecho do dia anterior. Acrescente-se a esta situação cinco pneus furados e duas bikes com pequenos problemas mecânicos, decorrentes de duas suaves quedas. Resumo do dia: não completamos o percurso. Anoiteceu e tivemos que parar no pedágio, 20 km antes do nosso objetivo, para sermos transportados pelo carro de apoio até a Pousada Vila Rica, localizada em Capão do Leão.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Pelotas

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3º dia – Pelotas (descanso) e replanejamento

Percebemos que o planejamento original precisava ser repensado. Quando o destino for a Costa Uruguaia não vale a pena iniciar o pedal em Porto Alegre. Por isso, decidimos ir de ônibus até Chuí. Levamos as duas bikes para o conserto na Dudu Bikecenter (Pelotas), cujo atendimento foi nota dez. Embarcamos, à tarde, com destino ao extremo Sul do Brasil, numa viagem de quatro horas. Os preços das diárias dos hotéis em Chuí são elevados e descasados do que oferecem. Além do mais, a cidade deixa a desejar em vários ouros aspectos. Ficamos no Hotel Internacional.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Chuí

4º dia – Chuí / Punta Del Diablo (55 km)

Atrasamos um pouco na saída, em função da necessidade de fazermos operações de câmbio e abastecermos o carro de apoio com alimentos, água, isotônico etc. Embora o real valha cerca 7,5 pesos, os preços no Uruguai estão pouco atrativos.

Na Aduana o procedimento foi tranquilo, sendo que com Passaporte é mais rápido do que com a Carteira de Identidade. Quanto às bikes, nenhuma exigência burocrática para entrar no País.

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Outro dia de pedal frio (10°C pela manhã), muitas, muitas retas cortando as belas fazendas, sempre na companhia conhecido e temido vento uruguaio. Pedalamos 36 km e chegamos ao belíssimo Forte de Santa Teresa. Este percurso é desprovido de posto de gasolina, lanchonete e coisas do gênero. Na entrada do Forte há uma lanchonete, mas é bom ter precaução. Visitamos o Forte e fomos conhecer também o igualmente lindo Parque de Santa Teresa.

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Em Punta Del Diablo ficamos hospedados nas cabanas do simpático casal (Sr. Walter e D. Marta, telefones 44772138, 099867000). Localizada entre a Laguna Negra, o Oceano Atlântico e ao lado do Parque Nacional de Santa Teresa, Punta Del Diablo é um refúgio para valorizar a tranquilidade, a boêmia e a liberdade, nada parecido com Punta Del Leste. Nas noites de verão, contudo, transforma-se num point de balada, burburinho e agito.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Punta Del Diablo

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5º dia – Punta Del Diablo / Cabo Polônio, passando por Aguas Dulces e Valizas (78 km)

Tomamos um reforçado café feito pelas meninas, batemos um papo agradável com Sr. Walter, nos despedimos e partimos. Mais retas, planícies, fazendas, nada de frio e, para felicidade geral de todos, abandonados pelo vento. Na altura do km 40 deixamos a Rota 9, entramos a esquerda pela Rota 16 em direção as nossas visitas do dia: Aguas Dulces e Valizas (este trecho assemelha-se a uma suave montanha russa).

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“A praia Aguas Dulces, nomeada assim devido a sua cachoeira de águas puras e doces, se caracteriza pelas pequenas casas misturadas irregularmente sobre a areia. Um lugar para os que gostam de férias sem apuros, com muitos livros e com espírito de descanso. A praia tranquila e extensa e o pequeno centro oferecem um encanto rústico entre bares a artesanatos.” (http://www.uruguai.org/atrativos-de-aguas-dulces/)

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Valizas é uma aldeia de pescadores e artesãos, com ares de ambiente hippie e descolado. A visita à foz do Arroyo Valizas, cujas paisagens das praias e dunas se destacam na paisagem bucólica do local, é imperdível.

De Valizas rumamos, via Rota 10, até o Terminal de Cabo Polônio. O acesso ao centro da vila é feito por caminhões 4X4, que não transportam as bikes, com duração de 25 minutos. Todavia, encontramos Emiliano, funcionário do terminal e um anjo protetor de bikes: não mediu esforços para acomodá-las num depósito de máquinas e equipamentos da equipe de manutenção do Parque. Sem este auxílio passariam a noite no estacionamento da estação, num local que exige cadeado e um pouco de oração, menos do que no Brasil, claro!

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Cabo Polônio era uma aldeia de pescadores que se transformou num polo turístico rústico, sem iluminação pública, pavimentação, esgotamento sanitário, mas, sem dúvida, um local de beleza natural ímpar. Na baixa temporada a população de lobos marinhos deve ultrapassar tranquilamente a de moradores fixos (cerca de 100 pessoas).

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Neste período do ano as opções de hospedagem são restritas e exigem uma grande elasticidade no nível de exigência, mesmo tendo como parâmetro acomodações simples. Compramos mantimentos e vinho no único ponto de venda disponível e Fernando, eleito chef do grupo, preparou uma deliciosa massa. Sara, uma portuguesa peregrina (esta rodando pelo mundo há dois anos), foi nossa convidada para o jantar na cozinha compartilha do Hostel Viejo Lobo.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Cabo Polônio

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6º dia – Cabo Polônio / La Paloma (50 km)

Retornamos de Cabo Polônio no primeiro caminhão do dia seguinte, às 10h e 30min. Organizamos as bagagens, bikes e iniciamos nosso pedal num maravilhoso dia de sol, sem vento, sem frio, perfeito! Planícies e belas paisagens rurais, enfeitadas pelo mimoso gado uruguaio, foram nossas companhias.

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Fizemos o check in no Hotel Viola e saímos para procurar uma lavanderia e a Central de Turismo para obtermos informações sobre a travessia da Laguna de Rocha. Sem utilizarmos esta alternativa seria necessário pedalarmos mais 35 km. Não conseguimos as informações, pelo contrário, várias pessoas disseram que não era possível realizá-la.

Decidimos seguir rigorosamente a dica de Aline e Ari. Pegamos o carro de apoio e nos dirigimos até a vila de pescadores de Laguna, em busca da casa de D. Olga (09880 1921), distante 14 km do centro. Literalmente, a última casa da vila. Tudo certo com a encantadora D. Olga: travessia agendada para o dia seguinte ao custo de 150 pesos/pessoa.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em La Paloma

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7º dia – La Paloma / Punta Del Leste, passando Jose Ignacio (90 km)

Ao acordamos percebemos que seria um dia desafiador: temperatura 7°C, muito vento e neblina. Depois do café pegamos a Av. Del Navío em direção à Laguna de Rocha onde encontraríamos D. Olga, uma pescadora que nasceu e se criou em torno da Laguna. A travessia dura mais ou menos 30 minutos.

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Do outro lado da Laguna, sem carro de apoio, seguimos por uma estrada de chão, meio deserta e com baixa densidade populacional, que na verdade é a continuação da Rota 10, até Laguna Garzon, distante 31 km. Ponto combinado para reencontrarmos o carro de apoio. Atravessamos num pequeno ferry-boat público e gratuito e, de volta ao asfalto, percorremos mais 11 km até a charmosa Jose Ignacio. Chuva, vento e frio foram nossos companheiros inseparáveis até Punta Del Leste.

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Nosso planejamento contemplava um dia descanso em Punta Del Leste, todavia em decorrência da chuva torrencial que enfrentamos no momento da chegada não tivemos condições de procurar um hotel/hostel mais acessível monetariamente e ficamos no Hotel Ajax, cujo preço estava bem acima de nossa referência. Ótimo hotel, mas…

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Punta Del Leste

8º dia – Punta Del Leste / Piriápolis (45 km)

A natureza é bela e surpreendente. O dia amanheceu lindo. Depois do tradicional biketur pelos principais pontos turísticos e de um desencontro com o carro de apoio, em função de problemas mecânicos, zarparmos. Pedalamos 12 km e uma surpresa: a primeira e única ladeira de todo o percurso, sendo rigoroso com o conceito.

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Essa ladeira dá acesso à Casa Pueblo, antiga casa de verão do pintor e escultor Carlos Páez Vilaró, recém-falecido, agora transformada em galeria de arte, museu, café e num hotel. Sua construção durou mais de 30 anos e foi realizada, em grande parte, pelo próprio artista. Esta aberta ao público das 10h às 18h.

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Visita realizada, partimos em direção à charmosa Piriápolis. Biketur concluído, ficamos hospedados no Hotel Lujan.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Piriápolis

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9º dia – Piriápolis / Montevidéu (100 km)

Tomamos café da manhã e enfrentamos mais um dia de pedal com frio e vento, via Rota Interbalnearia. Dois pneus furados e um parafuso de gancheira quebrado foram os aperitivos do percurso.

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A surpresa maior ainda estava por vir. Não sabíamos que 12 de outubro é feriado nacional no Uruguai (Dia do Descobrimento da América). Tivemos uma dificuldade enorme para encontrar hotel com vagas disponíveis. Horas e horas de procura e felizmente conseguimos acomodações no Hotel Mediterrâneo, onde fomos muito bem recepcionados pelo solícito Antônio.

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Montevidéu

10º dia – Montevidéu

Dia dedicado ao turismo e descanso.

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11º dia – Montevidéu / Colônia Del Sacramento (185 km)

Na reunião extraordinária feita na noite anterior decidimos dormir em algum local nas imediações do km 100, contudo, o dia estava maravilhoso, as condições da rodovia eram ótimas, nada de vento, estávamos descansados e por volta das 13h tínhamos percorrido pouco mais de 100 km.

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Assim, resolvemos encarar o desafio e batemos nosso recorde diário de pedal, cuja premiação foi podermos contemplar o belíssimo por do sol no estuário do Rio da Prata. Passada a euforia dos 185 km/dia e ainda encantados com a beleza do pôr do sol, revivemos a síndrome do “déjà vu”.

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Escureceu e não conseguimos acomodação, pelo mesmo motivo de Montevidéu. Além disso, havia uma festa na cidade. O desespero já estava batendo à porta quando fomos salvos pelo Hostel El Espãnol. Que alívio!

[Nota do blog]: Veja aqui opções de hospedagem em Colônia Del Sacramento

No dia seguinte Fernando e Nelson retornaram para Porto Alegre com as bikes na Strada e nós atravessamos o Rio da Prata. Duas noites de descanso e passeios em Buenos Aires.

Finalizamos nossa odisseia numa viagem de ônibus, com duração de 18 h, até a capital gaúcha.

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There are 4 comments

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  1. Ari

    Parabéns Sebastião Filho,

    Belíssimo relato! Ficamos saudosos de nossa viagem, relembrando com vocês.

    Cicloabraços,
    Aline e Ari (BikeA2)

  2. Solange Ricioli

    Olá! Muito bom o relato!
    Gostaria de saber se vocês tiveram dificuldades em transportar as bikes no avião e como elas foram embaladas.


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