Cicloturismo: Pedalando por 300 municípios do estado de São Paulo

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Montagem: acervo pessoal Cesar Rocha

Troquei uma depressão por uma bicicleta. E saí no lucro!

Sofri de depressão desde 1993 até praticamente 2013. Nesse período cheguei ao fundo do poço, perdi quase tudo, em termos materiais e espirituais. Duvidei de Deus, de mim; afastei-me dos amigos, da família e da sociedade em geral, me fechando e ignorando o mundo.

Em 2012 resolvi dar fim a esse estado de coisas, pois já não me suportava mais. E sem saber explicar exatamente como aconteceu, decidi por pedalar pelo mundo. Na verdade, pelo estado de São Paulo. Fiz um projeto de visitar os 645 municípios paulistas pedalando. O que se revelou tarefa exagerada para minhas condições físicas: 61 anos, diabético e com 2 pontes arteriais no coração, após sofrer um enfarto, em 2001. Então reduzei esse número para 300. Dos quais já visitei 108.

A experiência tem se revelado um verdadeiro renascimento. Uma volta ao passado, pois muitas vezes, durante o pedalar, me sinto um adolescente, inclusive refazendo caminhos que fiz nos anos 60, época que morei em 4 cidades no interior paulista: Bauru, Ribeirão Preto, Marília e Limeira.

Sou paulista de nascimento mas moro desde 1970 em Brasília-DF. A escolha de São Paulo, além da motivação afetiva, se deu por questão logística: ali existem cidades a praticamente cada 20, 30 km, o que me daria (e dá) a segurança de não ficar à noite em estrada, pois optei por não carregar barraca; durmo em hotéis e pousadas.

Já realizei 3 viagens, em torno de 40-60 dias cada. Já percorri os extremos Norte, Sul, Leste e Oeste do estado (Igarapava, Ilha Comprida, Bananal e Rosana), além de passar pelo centro geográfico do estado, em Dourado. Criei um perfil no Facebook – Cesar Pedalando – um tanto tardiamente, depois de quase 1.000 km de jornada. Por falar em quilometragem, até agora foram 3.565 km nesse projeto, num total de 6.035, pois faço pequenos trechos em Brasília, quando estou por aqui.

Pedalando por 300 municípios
Pedalando por 300 municípios do Estado de São Paulo. Montagem: acervo pessoal Cesar Rocha

Essa viagem me trouxe muitas novas e verdadeiras amizades. Só agora voltei a sentir o valor de uma amizade sincera, desinteressada. Em cada cidade que passo, a recepção é sempre carinhosa, primeiro motivada pelo inusitado de uma pessoa chegar e sair de lá pedalando. Procuro sempre visitar a Prefeitura local e um veículo de imprensa, no que nem sempre sou bem sucedido, porque às vezes chego tarde, depois das 17h ou em finais de semana. Devido a meus escassos recursos financeiros, procuro ficar um dia apenas em cada cidade.

Pedalar por estradas difere bastante do ciclista desportista. Não tenho pressa, só meço as distâncias percorridas para registro, mas em nada importa o tempo que gasto para ir de um ponto a outro. Quando converso com ciclistas por onde passo, geralmente vem a pergunta de qual a minha velocidade, o que lhes surpreende… Meu pedalar não compete com nada ou ninguém. à medida que amadureço nessa epopeia, descubro um sentido novo para a vida, reflito muito e me descubro filósofo.

Alguns me cobram engajamento na questão da mobilidade urbana, recentemente despertada na consciência do brasileiro, que ainda engatinha. Isso também não me abala ou atinge. Meu pedalar é de autoconhecimento, de resgate de valores que julgava extintos, renovados pela nova visão que tenho do mundo, das pessoas. A Natureza agora é o grande parceiro, é minha casa. Sinto-me mais à vontade em uma grande rodovia, com carretas passando pertinho, do que no sofá da sala de casa.

Televisão já não significa nada para mim, salvo um filme vez ou outra por pura distração. Viajando de bicicleta descobri que o mínimo é suficiente para viver. Adeus consumismo. Adeus angústia pelo não-ter. Agora tenho a mim, minha alma, minha paz. Isso sem falar na saúde recuperada.

Foto: acervo pessoal Cesar Rocha
Foto: acervo pessoal Cesar Rocha

Ainda não sei até onde deu pra ir, porque estou no meio da jornada. Tenho outros projetos, como o de ir de Belém-PA a Laguna-SC, seguindo a linha de Tordesilhas, e o de ir até o Atacama, no Chile. Questão de tempo.


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