Projeto Ciclo Junino – Uma jornada de bicicleta pelo coração do São João baiano.

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Amanhecer em São Francisco do Conde (BA). Foto: Raphael Araújo

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Por Raphael Araújo

Olá amigos do Até Onde Deu pra Ir de Bicicleta,

Meu artigo de estreia no site será sobre o Projeto Ciclo Junino, que foi originalmente publicado neste link. Tenho um carinho muito grande por esse artigo e estou no meio da produção de um livreto com a história completa dele.

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Projeto Ciclo Junino – Uma jornada de bicicleta pelo coração do São João baiano.

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Após três dias do final da viagem, finalmente me sinto pronto para tentar escrever algo sobre as experiências que tive durante o Ciclo Junino, viagem que fiz de bicicleta durante sete dias, partindo da cidade de Salvador, até a Ilha de Itaparica, ambas no estado da Bahia, circundando no sentido anti-horário a Baía de Todos os Santos.

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Esse artigo é de certa forma um vislumbre da essência da viagem, pois o relato completo vai ser disponibilizado em um livro, junto com uma história que tenho sobre outra ciclo-viagem que fiz à Vila de Mangue Seco, cenário paradisíaco onde foi gravada a adaptação para televisão do romance Tieta do Agreste, de Jorge Amado.

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Percorri cerca de 350km em estradas e trilhas e sei que isso não enche os olhos de muita gente, mas o objetivo da viagem não era apenas pedalar, mas criar um registro fotográfico que trouxesse as pessoas para perto de toda a cultura junina do Recôncavo, alem de fortalecer os movimentos locais e entregar aos representantes da secretarias de turismo municipais, o Manual de Orientação para Circuitos de Cicloturismo, criado pelo Clube de Cicloturismo do Brasil, documento que vocês podem conferir no site do clube.

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Vivi muitas coisas durante a viagem, mas a experiência que julgo ter sido a mais importante foi com as pessoas. Logo no primeiro dia, tive o prazer de visitar uma escola chamada Espaço do Saber, na cidade de Madre de Deus. A escola trabalha com crianças e adolescentes com dificuldade intelectual (Síndrome de Down, autismo e paralisia cerebral) e auditiva, o trabalho lá desenvolvido é financiado com recursos da própria prefeitura, mas todas as dificuldades são dribladas pelas pessoas que lá trabalham, pois mesmo com uma grande estrutura, faltam pessoas qualificadas para desenvolver as atividades ocupacionais e o maior desafio para os que já estão lá, é manter os seus 28 alunos em progresso educacional, pois para a maioria, a escola representa o ponto alto de suas vidas sociais. A verdade é que eles desenvolvem as crianças até onde eles podem, mas falta orientação dos pais, que muitas vezes possuem as mesmas condições que os filhos, e um lugar para continuar o ensino quando eles atingem a maioridade. Sim, existem alunos com mais de 20 anos na escola e eles literalmente não tem onde continuar o seu desenvolvimento.

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Encantei-me tanto pelo Espaço do Saber, que atrasei a minha chegada em São Francisco do Conde, onde deveria encontrar o funcionário da prefeitura que iria me levar até uma pousada que seria cedida por eles mesmos para o projeto. A idéia original era acampar num colégio público, mas fiquei grato pela notícia, estava encharcado depois de pedalar um dia inteiro de baixo de chuva… Quando cheguei à cidade, já era noite e estava preocupadíssimo com a hipótese de não encontrar o responsável pelo acerto, mas novamente fui surpreendido pelo povo do Recôncavo.

Amanhecer em São Francisco do Conde (BA). Foto: Raphael Araújo
Amanhecer em São Francisco do Conde (BA). Foto: Raphael Araújo

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Descobri que eles também estavam preocupados comigo. Logo quando cheguei à entrada da cidade, fui abordado por três funcionários da secretaria de turismo que estavam aguardando a minha chegada. Para quem estava molhado até a alma, cansado e preocupado, agora até carro de apoio eu tinha! Fui guiado pela cidade até o lugar onde passaria a noite e dormi feliz pela recepção que tive.

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No outro dia, segui até a cidade de Santo Amaro e notei uma grande diferença no cenário a minha volta, no dia anterior tive que pedalar por cenários quase que urbanos, onde muitos caminhões passavam ao meu lado devido as estações da Petrobrás que existem na região e a estrada estava precária. Depois de São Francisco do Conde, a viagem se tornou completamente diferente, pude desfrutar de fato a pedalada e a única coisa que ainda me atormentava era a chuva incansável. Tive que pedalar grande parte do tempo usando uma jaqueta corta vento e às vezes era quase que sufocante.

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Passei duas noites na companhia de minha avó em Santo Amaro, no primeiro dia visitei as belezas arquitetônicas da cidade e pude tirar boas fotos nas Igrejas da Purificação e do Rosário, quando voltei ao sítio, montei na bicicleta e fiz uma trilha até um dos lugares mais altos da região, conseguia ver até o oceano nas praias de Cabuçu. Um cenário realmente bonito de se ver, onde comecei a entender de fato o porquê de se chamar Recôncavo Baiano.

Cores do São João em Santo Amaro (BA). Foto: Raphael Araújo
Cores do São João em Santo Amaro (BA). Foto: Raphael Araújo

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Na manhã do quarto dia de viagem, segui para a cidade de Cachoeira e foi lá que pude sentir o São João acontecer, pois nos dias anteriores só pude presenciar a preparação da festa e o capricho da população em colorir as cidades. Peguei uma estrada linda e tranqüila até cerca de 4km da cidade, onde começa uma enorme descida sem acostamento. Parei, pensei no que deveria fazer e tive que decidir entre as seguintes opções: Descer em alta para não ser pego por um carro, ou esperar e tentar conseguir uma carona. Optei pela primeira opção.

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Desci que nem uma vespa, a bandeira nacional que estava presa ao fundo da bicicleta zumbia em resposta ao forte vento que passava por mim, fiz uma máxima de 71.3km/h usando toda a habilidade que desenvolvi e ainda estava com a bicicleta carregada. Estava sempre olhando pelos retrovisores e consegui descer de forma rápida e segura, foi meio assustador no começo, mas estava seguro de que era a melhor alternativa, pois tinha esperado no topo por uma longa vaga entre os carros que vinham na estrada.

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Até esse momento, ainda não tinha nenhum plano concreto de onde iria dormir, exceto por uma informação vaga de que existia um camping, que para minha surpresa, era logo após a entrada da cidade e sua beleza logo me cativou, era absolutamente maravilhoso. Chamado de balneário Vale das Cachoeiras, o lugar fazia jus ao nome, aonde um pequeno veio do rio Paraguaçu passava, criando diversas quedas d’água devido ao terreno acidentado. Com donos simpáticos e cuidadosos, o camping foi um achado feliz e foi onde passei os melhores momentos da viagem.

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Planejava passar apenas dois dias na cidade, mas logo quando dei o primeiro passeio, percebi que necessitaria de muito mais tempo para explorar os segredos da região. Encravada no meio de altos morros e planaltos, Cachoeira fica as margens do Rio Paraguaçu e logo a Noroeste de sua localização fica a barragem de Pedra do Cavalo, um imenso paredão de pedra que aumenta o leque de possibilidades para quem gosta de panoramas de tirar o fôlego. Uma linha ferroviária ainda atravessa o coração da cidade e segue em direção a Imperial Ponte D. Pedro II, construída no século 18, é uma grande ponte de ferro que atravessa o rio e liga até a cidade de São Félix, que parece ter sido esculpida aos pés de um enorme planalto.

Fim de tarde na antiga estação de trem em Cachoeira-BA. Foto: Raphael Araújo
Fim de tarde na antiga estação de trem em Cachoeira-BA. Foto: Raphael Araújo

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Foi em Cachoeira que consegui provar todos os sabores e tradições do São João da região: brinquei num parque de diversões, provei licores, me diverti em barracas de tiro ao alvo, joguei dados, me sentei em frente a fogueiras e conheci velhos amigos. Comi queijos, soltei bombas, me deliciei com paçocas e milhos, vi quadrilhas e a eleição da Miss, vi grupos infantis de música aquecendo o coração da cidade com seu som orquestrado, olhei, senti, ouvi e aprendi, experimentei tudo o que pude pelo tempo que pude e fico feliz em lembrar dos momentos que passei em Cachoeira como um dos melhores que passei na vida.

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Três dias e quase trezentas fotos depois, decidi que era hora de continuar a viagem e chegar ao meu destino. Desmontei o acampamento que tinha construído com lona e bambu, me despedi de todos os amigos que fiz e decidi mudar o rumo da viagem, pois tinha sido recomendado a usar as estradas vicinais da região, indo pela região que margeia o rio e visitando as vilas ribeirinhas, ao invés de arriscar minha vida na BR-101 em direção a cidade de Cruz das Almas. Foi exatamente isso que fiz e não me arrependo, pois pude experimentar uma estrada tranqüila, rural e muito bonita.

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A partir desse momento, não tinha mais planejamento, pois havia mudado a rota e teria que improvisar. Conversei com minha mulher ao telefone e ela estava tentando entrar em contato com as pousadas das cidades para mim. Pretendia passar a noite ou na cidade de Maragogipe ou em São Roque do Paraguaçu, segui viagem e as 13:00h cheguei na entrada da cidade Maragogipe. Tinha que tomar uma decisão e adiantar mais a viagem para chegar até São Roque, que estava a cerca de 22km de onde estava. O problema era que o ritmo estava muito lento, devido ao sobrepeso da bicicleta e a geografia montanhosa da região, que me fazia subir e descer por ladeiras durante todo o percurso. Decidi que tentaria conseguir uma carona que adiantasse um pouco meu itinerário, já que ainda não tinha idéia de onde iria dormir.

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Consegui uma carona assustadora no fundo de uma caminhonete que me deixou a 10 km de São Roque. Fui desconfortavelmente no fundo me matando para conseguir impedir que a bicicleta voasse nas menores trepidações, quase perdi a bandeira do Brasil para o vento nessa carona. Agradeci e segui por um caminho que finalmente era quase plano, cheguei à cidade sem maiores problemas ou preocupações.

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Lá, conheci uma família que me cedeu uma laje para acampar, almocei na melhor pizzaria da cidade (a única) e tentei descansar após tirar umas fotos pela região, só que uma festa na praça acabou por me deixar acordado pela madrugada inteira, para completar ainda estava fraco e tive uma pequena febre, me mediquei e pude finalmente dormir as 3:30h da manhã.

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Na manhã do que seria o ultimo dia de viagem, acordei rígido e cheio de dores pelo corpo, me arrastei para fora da barraca e comecei o árduo trabalho de desmontar o acampamento e montar tudo na bicicleta novamente, tomei café na casa de uma simpática senhora e comecei um pedal dolorido e amargo enquanto meu corpo estremecia a qualquer movimento. A febre da noite passada tinha minado minhas forças e sentia dores até para passar as marchas. Pedalei por 18km até o entroncamento da estrada para Ilha de Itaparica e comecei a ter febre. Fui obrigado a parar no meio da estrada, sem sinal de telefone e com pouco dinheiro.

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Estacionei debaixo de um pequeno quiosque feito de palha e tentei pensar em como sairia dessa enrascada. Minhas opções eram pedir carona ou conseguir pegar um ônibus até Itaparica, que ainda estava a cerca de 44km de onde eu estava, ou forçar um pouco até a cidade de Salinas da Margarida, que estava a cerca de 20km. Preferi tentar a carona até um horário que ainda fosse seguro para eu seguir até Salinas, caso não obtivesse sucesso, os ônibus que passavam estavam todos lotados devido ao grande fluxo de pessoas saindo do interior que buscam o atalho do Ferry-boat Itaparica-Salvador. Já estava prestes a desistir e fazer alguma coisa para almoçar quando ouvi a buzina atrás de mim, um caminhão havia visto meu pedido de carona e tinha parado mais a frente. De repente a energia voltou a mim e corri, empurrando a bicicleta pelo acostamento até o caminhão. Um homem de rosto simpático desceu e me ajudou a carregar a bicicleta até o compartimento de carga, que era frio e devia levar algum tipo de carga congelada. Para minha sorte, eles estavam indo até Bom Despacho, lugar onde é o embarque para Salvador, na verdade, mais que isso, eles estavam indo fazer entregas em Lauro de Freitas, cidade onde eu moro, e precisavam de um guia para ajudar-los a chegar lá. Estava numa situação favorável e de febril, sozinho na beira da estrada, passei para um febril com carona para casa.

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Depois de algumas aventuras para conseguir pegar o barco, cheguei a minha cidade as 21h00min, perto de onde há sete dias eu tinha saído. Ainda tive que pedalar por cerca de 1km até em casa, pois meus amigos caminhoneiros de Ribeirão Preto ainda tinham diversas entregas a fazer e a estrada que eles iriam percorrer ainda era longa. Pedalei calmamente até onde minha mulher e nosso cachorro me esperavam com uma recepção simples e discreta, mas cheia de amor e alegrias. Estava finalmente em minha casa e poderia tentar relaxar, mas ainda faltava muito que fazer, todo o meu corpo doía e não poderia continuar, pelo menos não naquele mesmo dia.

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O primeiro pensamento que fluiu de mim quando acordei em minha cama no outro dia, foi um enorme sentimento de gratidão por todos que conheci e tive o prazer de partilhar experiências durante a viagem, à impressão que tinha era de que já os conhecia há muito tempo, e que eram antigos amigos, talvez de outras vidas, talvez não.

Topo da trilha no ponto mais alto da região de Santo Amaro.
Topo da trilha no ponto mais alto da região de Santo Amaro.

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Como falei, esse é apenas um relance sobre a viagem, uma tentativa de sintetizar algumas das coisas que passei e aventuras que vivi. Em breve publicarei a história completa com todos os nomes e detalhes, alem disso, em 2014, o circuito Ciclo Junino vai abrir as portas para que cicloturistas de todo o Brasil venham conhecer a maior festa regional do Brasil, fazendo o que eles mais gostam de fazer, pedalando.

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Próximo destino: Canudos.

Raphael Araújo

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Ciclista, viajante e contador de histórias. Hoje trabalho produzindo projetos de viagem com caráter jornalístico e ecológico, escrevendo minhas histórias no blog http://cicloexpedicoes.wordpress.com/.

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