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Atacama e Estrada de La Muerte – Um Sonho de Liberdade

Por Marcelo Nogal Costa

ATACAMA E ESTRADA DE LÁ MUERTE – UM SONHO DE LIBERDADE!

Lá estava eu, onde o azul do céu era mais bonito, admirando a Cordilheira dos Andes ao meu redor, apesar de todos os alertas desesperados da minha família e dos meus amigos de não ir ao Chile por causa do H1N1… Mas não, em meados de 1998, lá estava eu, no cume de uma montanha filosofando sobre os tons alaranjados do Atacama! Até que avistei um grupo de viajantes de bike cruzando o horizonte, se perdendo em sinuosas curvas que levavam ao infinito das montanhas…

Naquele momento descobri que não tinha a liberdade que queria, meus pés não conseguiriam me levar até aquele infinito desconhecido! Entristeci, pois não sabia pedalar… Sim, um velho com mais de trinta anos que nunca se interessou em se equilibrar em duas rodas! Voltei com aquela frustração para São Paulo, um pensamento ficava martelando em minha mente: “Vou aprender a pedalar e voltar ao Atacama!”, estava decidido…

Aprendendo a andar de bike

Comecei a tentar me equilibrar na pequena e velha bicicleta da minha irmã, mas não era fácil, subia na bike e caia, repetia inúmeras vezes, quase duas horas de insistência e nada! Não passava de cinco centímetros… Saía esgotado, suado, desanimado! Mas quando o sol nascia meu ânimo revigorava, então seguia pra casa da minha irmã…

Depois de uma semana decepcionante, eu já não me achava um cara tão persistente assim, mas quando me imaginava pedalando livre, imerso na imensidão azul do céu do deserto, criava forças e continuava tentando, minha irmã até que ajudava, ia segurado no banquinho, era meio constrangedor, todos que passavam olhavam, alguns indignados, outros me desanimavam diziam “Não conseguiu aprender quando criança, agora vai ser difícil!”.  Já uns velhinhos tentavam me incentivar: “Rapaz não olhe pras rodas, olhe pra frente!” Minha irmã cansou, eu também e nada, não seria naquele dia que eu sairia pedalando… Mais uma semana de esforços em vão, já estava começando a duvidar das minhas capacidades, mas parecia ser tão fácil, por que eu não conseguia me equilibrar?! Que droga! Fiquei irritado…

Se passaram três dias e eu nem fui tentar, já não acreditava mais, minha irmã insistiu que eu continuasse, que era assim mesmo, que demorava pra aprender… Mais dois dias tentando e nada! Mas minha irmã gritou “Marcelo, está pedalando!” como assim, tentei olhar pra trás meio desequilibrado e não vi minha irmã segurando a bicicleta, estava pedalando, “Viva!” e a bicicleta pegando velocidade, “como que se para esse troço, ahhhhhhhhhhh!” foi também o dia que levei o primeiro super tombo… Agora tinha que descobrir onde ficava o breque!

E foi assim mais uma semana, empolgado, aprendendo a fazer curvas, conseguindo dar a volta no quarteirão… Agora precisava comprar uma bike! Puxa, a nova, tinha dezoito marchas, e, o meu carro velho só ia até a quinta… É… Ainda tenho muito que aprender, até voltar ao Atacama! O novo desafio era o meu condicionamento, não ia conseguir chegar à primeira curva das montanhas dos Andes.

Tracei um circuito pelo meu bairro aonde iria me condicionar, comecei pedalando dez quilômetros, depois aumentei pra vinte, e encontrei uma ladeira enorme em minha frente… Só de olhar a subida eu já caia da bicicleta. Pedalava dia sim e dia não, mas quando chegava à subida não tinha folego, nunca conseguia, mas eu não ia desistir, não agora… Aumentava as distâncias, mas quando chegava a tal subida do Cabuçu, as pernas tremiam, a pressão caia e o velho aqui não conseguia…

Foi um mês de esforços e subia até a metade da ladeira… A chamava de ‘montanha mágica’. Se eu passasse por ela, eu conseguiria transpor qualquer uma nos Andes! Assim segui por mais um mês, trocando as marchas, com os joelhos doendo, bebendo água, cada dia que tentava, mais um pedacinho da montanha eu subia.

Até que num domingo chuvoso, com todas as forças que tinha consegui transpor a montanha mágica. Larguei a bike na rua e pulei que nem uma criança, emocionado por minha façanha. Eu sou assim, me emociono com qualquer coisa. Feliz, agora eu sabia o porquê ela era mágica, porque ela transformava crianças em homens fortes…

Pedalando na Estrada de la Muerte – Bolívia

Não havia passado nem um ano do meu aprendizado e lá estava eu na Bolívia para meu batizado em montanhas… Estava em La Paz acertando os detalhes em uma agência de turismo para descer a Estrada de La Muerte de bike. Se era pra começar, que seja em alto estilo… E se eu sobrevivesse descendo de bike a estrada mais perigosa do mundo, estaria pronto para ser livre no Chile!

A composição química desta jornada pela Bolívia é perfeita para um roteiro trágico num filme de terror: péssimos motoristas, carros velhos sem manutenção, pista molhada, neblinas, deslizamento de terra, estrada extremamente sinuosa e alta velocidade… Tudo colaborou para que ganhasse fama mundial, passou a ser chamada de “The Death Road”! Vários documentários sobre a estrada macabra foram produzidos, várias cenas chocantes no youtube podem ser vistas, e, por tantas e outras cositas que a Carreteira 3 é considerada simplesmente: A mais perigosa da América Latina!

É só por este simples motivo que estávamos ansiosos naquela noite chuvosa, por coisa pouca é claro, apenas uma voltinha de bike pela Bolívia nos aguardava do dia seguinte! À noite foi longa, e a chuva não deu trégua,. Tenso, no dia seguinte me reuni na agência com os demais gringos para a aventura, cerca de umas vinte pessoas. O café foi farto, do tipo: morram de barriga cheia pelo menos. Depois do café tivemos que assinar um termo de responsabilidade, do tipo: A agência não se responsabiliza por sua insanidade de querer descer a rota da morte, assuma os ricos…

Na sequência o guia começou a entregar o capacete e as vestimentas da aventura. Era quando batia a angustia, o coração acelerava, suava frio, os minutos se tornaram modorrentos, quase nenhum dos turistas falava, alguns sorriam pra disfarçar a tensão, um silêncio sufocante. Queria logo subir na bike e soltar toda a adrenalina acumulada, gritar, mas não, estávamos na eternidade no tic-tac… Tínhamos que aguardar as vans chegarem! Essa tensão durou por longa uma hora… Quando vi a magrela amarelona encima da van e aquela chuva em La Paz me deu um frio no estômago, um medoooo…

Com aquele uniforme de ciclista maluco subi na van, o trajeto não foi dos mais agradáveis, ao som do heavy metal boliviano “Alcoholika I am Bolívia” subíamos o morro. A capital da Bolívia não acabava, subíamos, subíamos, subíamos, passamos por uma hidrelétrica e a paisagem finalmente começou a mudar, tudo branco ao redor: montanhas, nuvens! Ora geava, ora chovia, os gringos tiravam fotos da paisagem fascinante, estávamos a mais de cinco mil metros de altitude, até que chegamos num posto policial. Ali ficamos cerca de meia hora, só pra aumentar a ansiedade, devia ter trazido o chocolate! Queria descer e seguir de bike, gritar, gritar, mas não, ainda tínhamos que cruzar as montanhas, descer La Cumbre até os 4700 e ai sim começar o Down Hill.

Quando vi a descida sinuosa e as montanhas nevadas dos Andes, perdi todo medo existente, queria descer logo, pedalar e curtir o local… Lá onde o ar é rarefeito fazia muito frio e foi lá que finalmente pude testar minha bike: o freio traseiro não funcionava, que maravilha! O guia me ajudou a regulá-lo! Cotoveleiras e joelheiras colocadas, tudo pronto pra começar a descida.

Nos primeiros quilômetros de La Ruta de La Muerte, de asfalto, a adrenalina corria nas veias, a velocidade variava entre os 40 a 60 kms por hora, o vento cortante é de trincar, as mãos chegam a doer mesmo com as luvas, e dói muito mesmo devido as baixas temperaturas! A cada curva fechada, a adrenalina vai às alturas e pra trás fica o cheiro de freio queimado. E quando dava pra fugir o olhar do foco, a paisagem se torna deslumbrante, as montanhas nevadas são monstros esculpidos pela natureza…

Os carros passam do lado buzinando sem parar, nada de se apavorar, é neste primeiro momento que vamos conhecendo a magrela e se acostumando com ela. Quando a chuva cai não enxergamos quase nada, o respingo que vem da roda dianteira cai direto nos olhos, pra dificultar a aventura é claro, mas agora nada mais importava! Em cima da bike, tudo passava mais rápido: a estrada, o pensamento, as horas, os kms…

Rapidamente chegamos a Unduavi. Nem parece que pedalamos cerca de duas horas, momento para descansar um pouco. Recebemos água, coca cola, banana, barras de chocolate e lanchinhos com patê de atum. Respirei fundo, um pouco aliviado de ter realizado a primeira etapa da aventura… Todos sobem novamente na van, são oito quilômetros de subida em meio a uma neblina constante, até entrarmos na antiga estrada da morte, esta, de terra e pedra, poucos carros e uma ribanceira enorme do lado esquerdo pra fazer o mais dos valentões cagar nas calças!

De volta sobre as duas rodas, voltamos a descer, a dificuldade aumenta, todas as forças do seu corpo vão para os braços devido à constante trepidação ocasionada pela estrada irregular, nas curvas tem que se tomar mais cuidado para não derrapar e ir parar no fundo do abismo, as pedras soltas são o maior perigo para se perder o controle da bike e acontecer um acidente inoportuno, então com atenção redobrada seguimos o Down Hill.

A paisagem muda drasticamente: agora montanhas verdes, cachoeiras que cortam a trilha, alguns dos gringos vão escorregando e se ralando pelo caminho, as bikes não vão resistindo e abrem o bico no meio do percurso. A minha já estava quase sem freio. Atravessamos dois rios durante o percurso, era no embalo que os cruzávamos. O clima foi mudando, para úmido e caliente, e, nem eu escapei de uma queda. Uma pedra travou minha correia, quando estava em alta velocidade, só tive uma saída para não me estourar: saltei da bike, quando perdi o controle e a roda traseira travou… Aiiiiii! Pra descer a Death Road também é preciso ter um pouco de sorte. Não sofri nenhum arranhão, levantei rapidamente, e segui, pois há uma máxima no esporte: Cair e levantar faz parte da arte de pedalar! Ainda mais pra quem aprendeu a pedalar a cerca de um ano…

Nos últimos quilômetros, agora sem pedra, com terra batida, a estrada se tornou mais plana, senti um alívio, aqui tinha mais controle da amarela, foi o momento que mais me diverti durante o Down Hill. Já batia aquela sensação de dever comprido, cada ciclista fazia o percurso no seu ritmo, agora eu seguia num ritmo de satisfação, atravessava por dentro de cachoeiras que caiam literalmente dos céus.

Estávamos chegando aos 1700 metros de altitude, os moradores do pequeno vilarejo de Coroico nos aguardavam. Foi uma saudação e tanto: Água na cara! Eu estava feliz, muito feliz por poder ter chegado até ali, sem freio traseiro e quase nada no dianteiro, com os músculos da mão direita estourados e com uma gigantesca vontade de fazer tudo de novo! Chegando a Coroico, descobri o porquê do repelente… Pernilongos malditos parem de me picar!

É… Tinha sobrevivido ao teste e agora estava pronto para realizar meu objetivo maior “pedalar livre pelo deserto alaranjado do Atacama!”…

Pedalando no Deserto do Atacama

Agosto de 2014, seis anos depois estava lá de novo, vendo a lua onde o céu é mais bonito, acampado no deserto com uma bike alugada, só o silêncio me separava das estrelas… Naquela noite não consegui dormir, e após a alvorada tomando o café, emocionado chorava olhando pra Bike.

Foto: acervo pessoal Marcelo Nogal Costa

Foto: acervo pessoal Marcelo Nogal Costa

Pensava “Quem no mundo entende de liberdade”, subi na Bike e vi a Cordilheira imponente, e lá bem distante onde o azul é mais azul estava a curva que levava ao infinito… E agora eu podia chegar até lá… Comecei a pedalar naquela direção que tanto sonhei, depois da curva o mundo até podia parar que eu não ia ligar… Um cachorro preto começou a me acompanhar naquela jornada, o nomeei como ‘sombra da felicidade’, seguimos juntos desbotando aquela paisagem alaranjada do deserto como ventos furiosos até a curva dos sonhos…

[Nota do blog:] se você vai pedalar pelas cidades desse roteiro, pode consultar hostels, campings, pousadas e hotéis nos links abaixo:


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