A bicicleta e a transformação psicológica

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Por Richard Antunes

Queridos leitores , iniciar os textos como colunista , foi um tanto quando difícil para mim, pois do meu ponto de vista , fica complexo começar sobre um determinado assunto no que tange a ciclismo e triathlon. Os assuntos são infinitos. Pois bem, iniciemos então com explicações de como tudo começou.

A bicicleta e a transformação psicológica

Até meados do mês de maio de 2009, minha vida era de um tremendo sedentário. Trabalhava como um louco, me alimentava muito mal (isso incluía ficar 5, 6 , 7 , ate 8 horas sem nenhuma refeição), e quando parava para comer, vocês sabem né? Batia aquele baita prato. Dormia em media 4 a 5 horas por noite, sem contar na quantidade de bebida alcoólica e remédios para dormir que eu consumia, no mínimo 4 vezes por semana. Este estilo de vida começou a me custar muito caro. Caro no sentido de pagar um preço alto com meu corpo e minha qualidade de vida. Neste ponto eu que tenho 1,78 metros,  já estava pesando 100 kg com um percentual de gordura girando em torno de 30 a 31%. Estava hipertenso, e com algumas alterações em nível sanguíneo, e isto com apenas 31 anos.

O resultado disso foi procurar um médico, pois, como quem me conhece sabe, já fiz uma cirurgia cardíaca e as coisas não estavam muito boas para mim. Na consulta o cardiologista me pediu uma serie de exames, e todos apresentaram problemas. O doutor foi categórico: “Richard , se você não mudar seu estilo de vida , iremos entrar com remédios para pressão arterial e para outros problemas, e só existe uma saída para você fugir disso: atividade física. E caso não inicie, as coisas vão piorar para você”.

Fui embora para casa de cabeça baixa, refletindo e pensando se realmente eu queria continuar daquele jeito. Fiquei pensando sobre tudo, e percebi que eu só ficava cansado, que não tinha energia para nada. Que minha vida estava horrível em todos os sentidos. Psicologicamente eu não tinha emocional para lidar com as dificuldades do dia a dia e a bebida tornou se uma válvula de escape para tudo. Nos dias que se passaram do dia da consulta, eu só refletia e, um dia resolvi procurar uma academia. Me matriculei para a musculação e na entrevista com o professor que iria montar minha ficha, eu expliquei que eu queria mudar de vida, que eu queria perder peso, que eu queria ter prazer em fazer atividade física, e de inicio fui ferrenho: ” – Professor, eu ODEIO correr”. E ele disse assim ;
“Calma Richard, tudo no seu tempo”. Isto foi primordial para que eu ficasse tranquilo.

Mas vamos ao que interessa né ? Comecei fazendo treinos de musculação intervalados com corrida na esteira, onde eu ficava na esteira por 10 minutos com series de 2 minutos de caminhada mais 2 minutos de trote, e corria para malhar um grupo muscular. Isso era feito três vezes por semana. Após os treinos eu me sentia exausto , mas com aquela sensação de prazer e relaxamento. Como sou curioso demais, comecei a pesquisar sobre as sensações que eu sentia e descobri que meu corpo liberava algumas substâncias que me deixavam com aquela sensação, e isto começou a me viciar. Quando percebi, eu estava já a 2 meses neste esquema e com 5 kg a menos. Perai! Cinco Quilos a menos??? Mas eu nem gostava de correr!! Pois bem, nesta brincadeira, por intermédio de um grande amigo de infância, Bruno Pinheiro, decidi comprar a porta de entrada para a minha felicidade, a minha terceira bicicleta.. (em outro texto explico a historia das duas primeiras – Que não tiveram um final feliz ;-).

Montei a primeira bicicleta de Mountain Bike, e decidi fazer trilha com este meu amigo, o Bruno. Na primeira trilha que fiz, sofri. Ah meu Deus mas eu sofri demais e só ficava para traz, e nunca terminava, as pernas doíam, nunca chegava e o estomago estava mal (não soube me alimentar), a garganta ficava seca demais (não sabia me hidratar), e quando eu ficava para traz eu pensava o tempo inteiro em como seria bom ficar com o pelotão da frente… Terminei a trilha destruído, com aquela sensação de “o que que eu tava fazendo ali”, em pleno domingo ao meio dia, pedalando desde as 6 da manhã. Fomos embora, e no caminho para casa, fui pensando em como havia sido bom. Espera aí, mas tinha sido bom sofrer daquele jeito ??? Sim! Pode parecer maluquice, mas só quem é moutain biker, corredor, triatleta e atletas de atletismo no geral vão me entender, pois achei delicioso aquilo tudo. As montanhas, as novas amizades, os novos conceitos, as parcerias em ajudar nas dificuldades, o trabalho em equipe para andarmos todos juntos, a parada da turma inteira para ajudar a trocar um pneu furado e mais uma série de questões que ficaram na memoria. A partir daquele dia eu decidi mudar a minha vida, por causa de uma simples bicicleta.

Lapinha-serra

Decidi levantar 3 vezes na semana antes de ir trabalhar para pedalar no asfalto mesmo, e intercalar com corrida, e nesta altura do campeonato tive que mudar minha alimentação, pois não tem como você almoçar uma feijoada na sexta feira  e ir correr 5 km de tarde não é mesmo ? Descobri que melhorar a alimentação era um efeito colateral da atividade física, pois era necessário alimentar se de refeições leves e práticas para serem digeridas rapidamente e serem transformadas em energia para o treino seguinte e neste ponto , eu já tinha pulado de 100 KG para 90 Kg. Sim, perdi 10 kg em menos de 4 meses e não precisa nem falar o que isto representa socialmente não é mesmo? Tratava-se de um efeito fantástico em minha vida, pois tudo estava alterado. Tinha perdido peso, mudado alimentação, aprendido a ter mais foco, mais organização e a lidar melhor com o tempo, sem contar a parte mais interessante que era de eu ter reduzido o uso de bebida alcoólica em uns 90%. Sim, eu estava vencendo, e tudo graças a um passeio no mato de bicicleta. Neste ponto, eu já corria 2 vezes e pedalava 3 vezes na semana , e o domingo era o maravilhoso dia de encontrar a turma as 5 da manhã para nosso pedal , e isto se tornou rotina.

Fiquei neste ritmo por uns dois anos e participei de provas de moutain bike, mas eu ainda estava inquieto, e um dia pesquisando na internet, vi uma reportagem sobre um cara que tinha saído do trabalho de helicóptero com a namorada para sua casa de praia e no meio do caminho houve uma tempestade que jogou a aeronave no mar e havia 4 pessoas , o sujeito , a namorada dele , o copiloto e o piloto .Resultado da tragédia: a namorada e o piloto morreram, e o sujeito, chamado João Paulo Diniz, nadou a noite, com tempestade e sobreviveu. Céus, me veio a pergunta: o que faz um sujeito abalado psicologicamente por saber que a namorada estava para traz se afogando, conseguir nadar debaixo de uma tempestade no escuro e ainda por cima conseguir se salvar em alto mar? Isto me martelou a cabeça e fui pesquisar para saber o que o cara fazia da vida. Bom, de inicio descobri que ele era filho do dono da rede de supermercado Pão de Açúcar, mas sabia que não era isto que o tornava um ser humano diferenciado dos demais. Na sequencia descobri que ele era um Triatleta. Mas o que mais me chamou a atenção, foi o lado emocional do cara em conseguir dar braçadas seguro e confiante do seu destino, e isto foi o que me levou em busca de me tornar um mutante, porque o que me interessava era construir um caráter de aço como o João Paulo teve ao se salvar. Sim, tenho o habito de dizer que nós triatletas somos mutantes, porque para fazer o que fazemos , só existe uma explicação. Definitivamente não somos normais !!!!E foi ai que tudo começou…

Tri abraços a todos e a saga continua no próximo texto…

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Meu Nome é Richard Antunes Roque, sou Triatleta amador (um esporte que você nada , pedala , e corre ),e nas horas vagas sou analista de Sistemas. Quase sempre me perguntam , “qual das três modalidades você mais gosta?” Adivinhem? O ciclismo. É em cima da magrela que tomei as maiores decisões da minha vida. Meu intuito em escrever para todos vocês é falar um pouco do cotidiano da vida de um triatleta, no que tange especificamente a minha tão sonhada bike, que foi um projeto para montá-la em 3 anos. Bom, os assuntos são demais e minha ideia é explicar o que isso tudo fez em minha vida, escrever sobre o mundo das magrelas no triathlon. Quais as diferenças , lançamentos , geometrias , custos , importação , enfim, as provas de triathlon que corro brasil a fora e que possamos interagir e compartilhar informações. Triabraços a todos !

6 COMENTÁRIOS

  1. Coisa linda cara!!! É por aí mesmo. Também fiquei pra trás muitas vezes, mas depois que vicia pronto, muda tudo!!!! Alimentação, sono, disposição, menos bebida alcoólica. É isso aí parceiro! Parabéns!

  2. Isso ai Richard, bom inicio! Sorte na nova caminhada!!!!

    Vc era um leitao e virou um na capa hehehe

  3. Isso ai Richard, bom inicio! Sorte na nova caminhada!!!!
    Vc era um leitao e virou um na capa hehehe

  4. Cara, sua história é linda… A minha esta se iniciando no mundo da bicicleta, coisa de 3 meses eu estou pedalando com um grupo de amigos, que no início eu achei que eles eram malucos, andar de bicicleta as 5 da manhã,foi só iniciar…kkkkk De lá para cá, não tomo mais refrigerante, procuro comer mais folhas e legumes, e, estou me sentindo bem melhor com 46 anos de vida sedentária !!! Forte abraço !

  5. Ta certo pessoal , Muito obrigado pelo retorno e carinho na leitura do texto , em breve teremos mais textos para vocês .E continuem firmes com o pedal , pois o resultado a longo prazo , é simplesmente indescritível!!Abraços a todos !

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