A crônica dos 3000km: pedaladas, devaneios e rock n’ roll

3
338

3000km – Pedaladas, devaneios e rock n’ roll

Mais um dia indo de bicicleta para o trabalho. Cheguei cedo e foi um dia daqueles – como são geralmente os dias de trabalho. Na hora de ir embora caiu um pé d’água. Tive de esperar. Li um bocado, trabalhei mais um pouco, mas a chuva parecia resistir. Chegou o momento do “não aguento mais”, que coincidiu com uma chuva bem fraquinha mesmo, daquelas que não incomodam ninguém, nem mesmo pedalando. Hoje era o dia em que completaria 3000kms pedalados desde que comprei Joelma, minha magrela. Faltavam 12 km, que seriam os 4 de volta pra casa mais um passeio, dado como certo antes da chuva, agora já dúvida pois era tarde e ainda garoava.

Fui destrancar a bike exausto, e lembrei dos versos do Vinícius e do Toquinho: “Mas não tem nada não, tenho meu violão”. Cada um com sua cachaça (whisky, no caso do Vinícius), e a minha é a bicicleta. Voltar de bike do trabalho, mesmo cansado, me renova. Vinícius à parte, fui mesmo de Pavement. Abri uma exceção e fui escutando música, coisa que raramente faço. No som do celular o disco “Brighten the corners” dessa banda que descobri há pouco tempo (os caras já estouraram, a banda acabou, tá se reunindo de novo e eu sempre atrasado nas novidades musicais).  Coloquei no volume máximo, um pouco alto, mas com o celular dentro da pochete ficava num som agradável. Encoberto em locais de muito trânsito e barulho, mas uma delícia de ouvir ao longo do trajeto, quando a cidade resolve se acalmar. Afinal, já era tarde.

Saí ao som de Stereo, me acostumando ainda com a chuva e o corpo ainda frio. O asfalto encharcado e o barulho dos pneus espirrando água: nada demais pra quem tem paralamas. Sinais abertos na descida da Av. Brasil e o trânsito vai se acalmando. Já ouvia perfeitamente o som, o corpo esquentava e já tinha me animado pra um passeio pela Andradas, pertinho de casa, onde ia acabar completando os 3000km: “transport is arranged“.

Fui super relaxado, viajando na música, cantando às vezes, curtindo as ruas vazias. A avenida escura, a chuva tinha espantado os carros, a grande parte dos mendigos que ficam por lá, e os últimos gatos pingados que geralmente correm ou caminham depois das 21:00hs. Por isso, fui na pista dos carros mesmo (a av. tem uma ciclovia e uma pista de caminhada, com +- 2km), que estava bem vazia. A noite, sem vento, escuro, chegava facilmente aos 30 e poucos km/h. Estiquei até o final da Av., na estação de tratamento da Copasa, retornando depois pro rumo de casa.

Fiquei pensando nessa coisa dos 3000km. Nada de mais e tudo demais ao mesmo tempo. Já havia pedalado muito mais com outra bicicleta, deixado de marcar por alguns anos, e agora retornara a registrar minhas pedaladas. Os números redondodos na verdade tem o peso simbólico. Os 3000 celebram todos os outros que vieram antes dele. Em algum momento me fiz uma pergunta que muitos já me fizeram ou quiseram fazer e não tiveram coragem: “por que faço isso?” “pra que?”. Mais uma vez não respondi.

Imagem019
.

O ciclocumputador acabava de registrar os 3000km. A chuva apertava um pouco. Acelerei, pedalei forte como se quisesse explodir toda energia do meu corpo. Minha voz engoliu o som da música e meus gritos abafaram a cidade: “I’m gonna take you down, I’m gonna take the crown!”

Imagem023
.
Imagem024
.

Parei no viaduto da Av. Silviano Brandão, por onde passam os trens e o metrô. Música interrompida para fotos. Faltavam 3 para o fim do disco. Voltei tranquilo, chegando em casa ao som de Fin. E era o fim. Mas só por hoje.

Pois é preciso seguir.

Imagem028
.

3 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns meu irmão… Que venham mtos mais KM… de vida pra Joelma e pra vc..

    paz.

  2. Grande Andre! Celebre a cada dia a vida sobre a bicicleta. Esta coisa de ir e vir de bike ao trabalho realmente e’ a melhor terapia, um passa tempo que faz bem para a mente e para o coracao. Parabens e Pedal na Veia 😉

DEIXE UMA RESPOSTA