Caminho da Fé: uma “ciclocaminhada” de 600 km, em 11 dias de pedal

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Por Sebastião Filho

De Tambaú (SP) a Paraty (RJ), via Poços de Caldas (MG)

No início de março deste ano conversando com o amigo Fernando Rocha, também membro do Grupo Ciclístico Zuandeiros, Aracaju (SE), sobre a possibilidade de realizarmos um pedal mais longo, decidimos fazer o Caminho da Fé. Divulgada a ideia entre outros membros do Grupo, dois toparam o desafio: Stella Freire e Chico Dantas.

Dessa forma, sem um planejamento meticuloso, treinamento mais focado ou coisa parecida para se fazer uma cicloviagem de 600 km, embarcamos dia 14.03.2016 com destino a São Paulo. Acordamos que nosso desafio, agora apelidado de ciclocaminhada, teria início em Tambaú (SP), passaria por Poços de Caldas (MG) e terminaria na cidade de Paraty (RJ). Este é o nosso jeito de se relacionar com o pedal. Em lugar de desempenho: lazer; diversão; companheirismo e integração com a natureza e a comunidade.

Inspirado no famoso e milenar Caminho de Santiago de Compostela (Espanha), a concepção do Caminho da Fé teve o objetivo de estruturar minimamente o percurso feito pelos peregrinos ao Santuário de Aparecida (SP). Inaugurado em 11.02.2003, o Caminho da Fé, atualmente, é uma referência em peregrinação no Brasil e no mundo. Seguindo o modelo do caminho europeu, no dia 15.08 do mesmo ano foi criada a Associação dos Amigos do Caminho da Fé, com sede na cidade de Águas da Prata (SP).

O Caminho da Fé exige muita disposição para um mix (pedalar/empurrar), em decorrência da altimetria do percurso. Sem falar nos variados e desafiadores tipos de terreno: arenoso, argiloso, siltoso etc. No mais, o Caminho é bem sinalizado, pois pedala-se sempre na inseparável companhia das famosas setas amarelas, além de ser, também, atendido por uma bem distribuída rede de pousadas simples com preços acessíveis (média da diária/pessoa: R$ 60,00). Tudo bem que o café da manhã poderia ser mais reforçado, em decorrência da necessidade energética demandada. Contudo, a abundância de atenção e hospitalidade são fontes proteicas adicionais. Embora tenha sido uma jornada exaustiva, principalmente pelo nosso descuido com o peso dos alforjes, média de 12 kg/ciclista, este fato em nada diminuiu a riqueza dessa experiência de fé e comemoração compartilhada da vida.

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1º Dia (15.03.2016) / Tambaú – Casa Branca (37 km)

Desembarcamos em Guarulhos, dia 14.03, por volta das 23h. Uma minivan (Ailton 11 9 8496 4642) já estava nos esperando para nos levar até Tambaú (SP), cerca de 270 km de distância. Chegamos de madrugada, sem reserva de hotel/pousada. Depois de uma boa peregrinação pela cidade, literalmente deserta, ficamos no Hotel Bertoncini, onde fomos muito bem acolhidos.

Pela manhã providenciamos as montagens das bikes, fomos conhecer a cidade e pegarmos as credenciais na Central de Turismo. A ideia era passar o dia em Tambaú, mas após o almoço decidimos seguir até Casa Branca. Um percurso curto e prazeroso.

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Em função de nosso desconhecimento, em vez de seguirmos as setas amarelas na entrada de Casa Branca, fomos em direção ao centro. Resultado: não ficamos na Pousada Nossa Senhora do Desterro, um local de singela beleza e aguçada espiritualidade, e no dia seguinte tivemos que retornar até a Pousada para carimbarmos nossas credenciais, aumentando nosso pedal em 6km. Todavia, quando fomos ler, à noite, o Guia do Caminho da Fé, de Antônio Olinto, a dica estava lá.

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2º Dia (16.03.2016) / Casa Branca – São Roque da Fartura (64 km)

Foi um dia de muitas emoções. Logo na saída de Casa Branca é preciso atenção. Por volta do km 3, a partir da Pousada Nossa Senhora do Desterro, no meio de uma subida, numa via asfaltada, temos que entrar a direita no meio de uma floresta de eucaliptos. Sim, existe setas amarelas indicando, mas não percebemos.

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No decorrer deste pedal o parafuso do bagageiro de uma das bikes quebrou dentro do quadro. Tivemos que procurar uma bicicletaria em Vargem Grande do Sul para resolver o problema. Depois de um bom tempo buscando uma solução na loja Ciclo Líder (Rua Santana, 33), Rangel, o solícito mecânico, recebeu uma luz espiritual proveniente do Caminho e conseguiu resolver o problema.

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Nossa intenção era pernoitarmos na Pousada de D. Cidinha, mas ao chegarmos, no finalzinho da tarde, o esposo dela nos informou que não havia vaga. Não houve negociação, embora cansados e com fome (não tínhamos almoçado) tivemos que pedalar mais 15 km. Continuando a subida da serra, onde fica a pousada, encontramos uma goiabeira carregada. Foi um manjar dos deuses. O trecho entre Vargem Grande do Sul e São Roque é muito bonito, porém cansativo. Foi onde começou, de fato, nossa ciclocaminhada. Saímos de uma altitude de 700m, aproximadamente, para 1.400m num percurso de 25km. Dormimos na Pousada Cachoeira, de D. Cida, uma pessoa de fino trato e excelente bate papo.

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3º Dia (17.03.2016) / São Roque da Fartura – Poços de Caldas (26 km)

Um dia de pedal tranquilo. Via asfaltada, com ótimo acostamento e sem a variação altimétrica do dia anterior. Após o almoço iniciamos, via Correios, um processo de desapego (envio de excesso de peso para casa) e depois fizemos um city tour pelos principais pontos turísticos da cidade.

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4º Dia (18.03.2016) / Poços de Caldas – Serra dos Lima, Pousada de D. Natalina (82 km)

O pedal entre Poços de Caldas até Águas da Prata foi relaxante, rodovia pavimentada, em ótimas condições e nada de serras. Passamos na sede da Associação dos Amigos do Caminho da Fé (AACF), carimbamos nossas credenciais, fomos até uma agência dos Correios para… isso mesmo: continuarmos o processo de desapego. Contudo, percebemos no decorrer da viagem que ainda mantivemos um elevado nível de apego. Dica importante: se você irá fazer o Caminho com alforje cuidado com o excesso de peso.

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Esta etapa, Águas da Prata até a Pousada de D. Natalina (uma senhorinha muito gentil e atenciosa), localizada no município de Andradas (MG), foi marcada, de forma emblemática e impiedosa, pelo retorno à ciclocaminhada, ao enfrentarmos a famosa e temida Serra dos Lima. Ao final da tarde, quase noite, chegamos à Pousada e nos dedicamos integralmente a um merecido descanso.

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5º Dia (19.03.2016) / Pousada de D. Natalina – Borda da Mata (60 km)

Mais um dia de belas paisagens e charmosos povoados. Almoçamos em Ouro Fino (MG) e aproveitamos para irmos a uma bicicletaria com o objetivo de verificarmos um pequeno vazamento na suspensão dianteira de uma das bikes. Por falta de peça, não foi possível consertá-la, todavia, o mecânico informou que podíamos terminar a viagem sem problema. E foi o que aconteceu.

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A partir desse trecho começamos a encontrar os famosos peregrinos. Um dos grupos estava fazendo o caminho pela quinta vez. Compartilhamos um pouco de prosa e continuamos nossas viagens.

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6º Dia (20.03.2016) / Borda da Mata – Estiva (38 km)

Nossa meta era pedalar até Consolação, mas o sol forte e a destacada altimetria fizeram com que aportássemos em Estiva, cuja decisão foi tomada, unanimemente, no decorrer do almoço.

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7º Dia (21.03.2016) / Estiva – Luminosa (68 km)

Depois de um bom descanso em Estiva partimos para Luminosa. Neste trajeto destacam-se duas serras: Caçador e Cantagalo. A primeira é logo na saída de Estiva, após a travessia da Rodovia Fernão Dias. Uma subida de aproximadamente 9km, começando com 900m de altitude e chegando a 1.300m. A segunda fica entre Paraisópolis e Luminosa. São cerca de 7km de subida, compensada por belíssimas paisagens de campos e fazendas em estradas de terra que parecem que adormeceram no tempo.

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É um pedal rico em belezas naturais, com destaque para a chegada em Luminosa, cuja visão do alto da montanha é indescritível. Uma paisagem realmente cinematográfica. O dia bonito foi um presente para apreciarmos o encanto de todo o vale onde repousa a pacata e tranquila Luminosa.

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8º Dia (21.03.2016) / Luminosa – Campos do Jordão (36 km)

Este foi o grande dia da coroação de nossa ciclocaminhada. A serra de Luminosa oferece paisagens impressionantes belas, no entanto o desafio da subida é grandioso, em face da inclinação, extensão e tipos de piso (de piçarra, com erosão, pedras soltas, e, em alguns pontos, úmido e escorregadio). Neste cenário, os primeiros 10 km consumiram 4h de “empurra bike”, acompanhada de conversas descontraídas, fotos, contemplação de uma natureza exuberante e reflexões diversas. Num percurso de 16km, a gente sai de 800m de altitude e chega a 1.800m, aproximadamente.

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No início da subida, em face do piso escorregadio, Chico, o melhor escalador do grupo, caiu e sofreu um corte na altura do joelho. Após prestarmos assistência com nosso kit de primeiros socorros ele conseguiu, heroicamente, terminar de subir a Luminosa e pedalar até bem próximo a Campos do Jordão. Conduzido até o Pronto Socorro recebeu quatro pontos e teve que encerrar o pedal. Seguiu de táxi até Paraty.

No topo da serra fica a divisa entre MG e SP, onde descansamos bastante e em seguida pedalamos até Campos do Jordão, local escolhido para ficarmos duas noites (21 a 23.03.2016). No caminho degustamos da ótima culinária do restaurante da charmosa Pousada Barão Montês. Minutos depois de chegarmos à Pousada Refúgio dos Peregrinos, em Campos do Jordão, do agradabilíssimo casal Marilda e Edson, caiu uma chuva torrencial, acompanhada de fortes trovões e relâmpagos assustadores. Foi uma benção não estarmos pedalando.

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9º Dia (24.03.2016) / Campos do Jordão – Aparecida (80 km)

Uma maravilha de pedal, principalmente para àqueles que não têm paixão platônica por desafiar grandes serras. Ao sair de Campos do Jordão, inicia-se a descida da Mantiqueira (cerca de 20km de declive) e o pedal segue num céu de brigadeiro até Aparecida.

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Quando chegamos a Aparecida descortinou-se diante de nós a imponente Basílica. Emoção e euforia tomaram conta de todos. Construída em tijolo aparente e muito grande, faz jus a fama de ser o maior santuário Mariano do mundo.

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Fizemos os registros fotográficos e fomos visitar a Basílica. Embora o dia estivesse muito quente, o interior da basílica estava com uma temperatura aconchegante. Externamente imponente, mas sublime e bela por dentro, o templo convida para um banho de renovação da fé e recapitulação da jornada. Não deixe, também, de visitar o Museu de Cera. Muito bom!

10º Dia (24.03.2016) / Aparecida – Cunha (54 km)

Um pedal muito agradável, com subidas leves, rodovia asfaltada e ótimo acostamento. Almoçamos e fomos conhecer a bela, montanhosa e, agora, famosa estância climática de Cunha, em face de sediar a L`Étape Brasil (Le Tour de France).

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11º Dia (25.03.2016) / Cunha – Paraty (55 km)

 Neste trajeto há uma significativa mudança na qualidade da rodovia: pista estreita, sinuosa, sem acostamento e com muitas subidas. Vale registrar que em função do feriado de Sexta-feira da Paixão nos deparamos com um trânsito intenso em todo o percurso.

Ao chegarmos à divisa dos estados de SP e RJ iniciamos a descida da Serra do Mar. Uma descida desafiadora em outros tempos, mas agora parece um passeio no parque. Encontra-se totalmente pavimentada: aproximadamente 23km de declive até Paraty.

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Depois de 14 dias de viagem, 11 de pedal, 600 km percorridos, nenhum pneu furado, tampouco problema mecânico, fé renovada, muita história pra contar, encerramos essa inesquecível aventura e retornamos a Aracaju dia 28.03.2016.

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Texto e fotos: Sebastião Filho, Grupo Zuandeiros, Aracaju(SE)

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2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bacana o relato! Olhando as fotos relembro de quando eu fiz também! Porém, quando fui, acabamos empurrando as bikes pela basílica toda, pois não encontramos local para guardá-las. Como vocês fizeram? Pretendo ir novamente este ano, se Deus quiser! Abraços!

  2. Ola pessoal!Sera que entendi bem.Foi dito que de cunha a paraty agora ta tudo asfaltado.E isso mesmo?

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