Cicloturismo: Circuito das Araucárias com “meu clone”

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Foto: acervo pessoal Caroline de Barba

Por Caroline de Barba

Era um dos invernos mais frios dos últimos tempos. Mas a previsão era de dias ensolaradamente lindos! Meu nível de estresse era estratosférico e eu precisava pedalar. Convenci minha irmã gêmea a me acompanhar no Circuito das Araucárias (região norte de SC). Novidade para nós duas. A vida dela não andava muito mais doce que a minha e ela topou na hora. Iniciamos o pedal no dia 27 de julho e terminamos no dia 30 de julho de 2013. Foram 250 km pedalados em 4 relaxantes dias, ou quase isso…

A aventura ficou por conta de a rota ser desconhecida e seres femininos, famosos por sua grande falta de senso de localização, estarem no comando de toda operação. Por mais que eu estude os mapas, consigo fazer bobagens homéricas e quilométricas (para mais, claro).

Dia 1 de pedal. O Circuito das Araucárias não é tão molezinha assim.

No primeiro dia faríamos apenas 50 km de bike. Por isso, acordamos tarde. Colocamos as bikes e alforjes na minha Doblô e partiu aventura. O dia estava lindo como previsto. Deixamos o carro num posto de gasolina no centro da cidade de Corupá.

Fomos até a prefeitura, onde tem o km 0 do trecho e começamos o Circuito das Araucárias. Já perto das 11 horas. Faríamos dois trechos: trecho 3 e trecho 4. O primeiro trecho foi muito tranquilo: estradinha de terra boa, com bananeiras e muita paz. Foram apenas 13 km. A chegada era no Parque das Aves, pelo qual passamos direto: queríamos pedalar! Até esquecemos o carimbo…

Então começou o trecho mais duro do circuito: as serras. Os 50 km não seriam assim tão fáceis não! Mas o visual era lindo! Cruzamos os trilhos de trem várias vezes no percurso.

Na localidade de Rio Vermelho achamos um barzinho com uma placa de Pepsi mais antiga que eu e um baleiro giratório que nos fez voltar no tempo. Chegamos a 1049 m de altitude e começamos a descer para a cidade de Campo Alegre. Tivemos que colocar mais roupas.

A cidade é conhecida como a cidade das ovelhas. Muito fofo o lugar. Demos uma voltinha pelas ruas e fomos procurar o Hotel. Primeiro baile de desorientação das meninas… A bodega estava fechada!!! Mas há “malas que vão pra Belém”. Achamos um café colonial fantástico para jantar. E a recepção era feita por uma vira- lata com roupinha de lã.

Dia 2 de pedal. Montanha russa nas pedras.

Levantamos 8h. A serração estava levantando conosco… Que frio. Passamos na padaria e compramos o café da manhã que carreguei no alforje. Ainda não tínhamos fome.

Hoje, nosso percurso seria o trecho 5 e 6 do guia. Apesar de não haver nenhuma serra longa, estávamos sempre subindo ou descendo. E isso foi quebrando as pernas das ciclistas. Foram 50 km numa montanha russa pedregosa.

Passamos pela antiga estrada de terra Dona Francisca. Muitas fazendas abertas para visitação turística, inclusive de ovelhas. Lindo visual de planalto! Começou o trecho que dá nome ao circuito: muitas araucárias pelo caminho! Atrapalhamos-nos deveras nos cruzamentos de asfalto. Mesmo com as placas novinhas, perdíamos muito tempo tentando entendê-las. E como o circuito era relativamente novo, ninguém entendia o que estávamos fazendo.

Chegamos ao fim do trecho 5 às 11h. Resolvemos tomar nosso café da manhã na beira da estrada. Sentamos em pedras e saboreamos nossos sandubas de queijo e chocoleites.

A estrada só piorou… Muitos “cala-bocas” e muitas pedras soltas. Cruzamos com alguns cavalos xucros soltos na estrada. Passá-los ou não passá-los eis a questão! Vimos uma plantação de pinheirinhos e comecei a cantar “meu piiiiinheirinho está lindoooooo” apesar de o natal estar bem longe. Mas eu estava tão feliz!

Chegamos a Pousada Ponte de Pedra ás 16h. Entramos porque a porteira estava aberta. Mas não havia ninguém lá. Pensei: ahhhhh, de novo não. Conhecemos a famosa ponte de pedra feita em 1884, ainda em uso. E matutamos como sobreviveríamos pelos 100 km do dia seguinte. O jeito seria sair junto com o sol. E torcer para chegar com ele. Naquele frio… Ai, ai…

Circuito das Araucárias
Circuito das Araucárias. Foto: acervo pessoal Caroline de Barba

Dia 3 de pedal. Um dia muito longo.

Levantamos 5h 45 min. Fazia um frio danado e a cama estava tão quentinha… O céu estrelado anunciava mais um dia fantástico. 6h 50min partimos junto com os primeiros raios de sol. A alegria durou pouco. Havia sol somente nas partes mais altas, nas baixadas havia uma forte serração gelada! Meu Garmin marcou 4 graus!

Ainda bem que pegamos um longo planalto. A serração ficou lá embaixo, criando um visual incrível lá em cima! Passamos outra vez por um trecho da Estrada Dona Francisca, enfiada no meio de um reflorestamento. A estrada ainda mantém seu calçamento original de pedras. Pensa como nossos bagageiros pularam morro abaixo.

A paisagem do trecho 8 era deslumbrante, de tempos em tempos me pegava com um sorriso besta na cara amando estar ali. Só saia do meu transe quando, no topo de um morro, o celular de minha irmã tocava. Era um marido deveras preocupado com a aventura da esposa e sua irmã, famosa pelas “desmiolices”.

Paramos numa igrejinha para fazer um lanchinho e descansar. Que delícia de lugar cheio de araucárias e grama cortadinha. Tínhamos sandubas que fizemos com o pão caseiro no café da manhã e uma barra de chocolate. Tive que dar uma de vândala para conseguir água ali.

Subindo a última serra começamos avistar a cidade de São Bento do Sul. Nosso destino. Jantamos um delicioso rodízio de pizzas (na frente do hotel!). Com cara de cansada e vestida elegantemente de meias grossas e chinelos de dedo, eu parecia uma doente em fase terminal…

Dia 4 de pedal. O que era para ser melzinho na chupeta, virou pezinho na lama.

Último dia de pedal. Eu estava bem cansada do dia anterior. Mas, o dia prometia ser fácil. Iríamos descer tudo o que subimos no primeiro dia. O guia falava em 10 km de descida suave. Oba! Seriam os trechos 1 e 2 do circuito, cerca de 50 km. O céu já estava azul logo cedo e os vidros escorrendo indicavam que a noite havia sido fria.

Subimos um pouco e logo chegamos à famosa descida. Que decepção! A estrada estava muito ruim. Havia muitos trechos com deslizamento de terra e muita lama. Aquilo não rendeu como esperado. A estrada parecia uma trilha enfiada no meio do mato. O que seguiu foi igualmente tenebroso. Grandes tobogãs cheios de pedras. As pernas esfriavam descendo e ardiam subindo. Que canseira!

Após cruzarmos um trilho de trem haveria a última serra do dia com 6 km. Eu já não aguentava mais. Minha moral estava no zero e eu parei. Simplesmente achei que não daria mais para seguir. Minha irmã me deu seus três últimos BCAAs. Foi a minha salvação. O “viagra para as pernas”, como costumo chamá-lo carinhosamente, fez efeito imediato. Consegui, me arrastando lentamente, subir os 6 km!

Que euforia chegar de volta em Corupá e ver minha Doblô nos esperando! Enfiamos tudo lá dentro e comemoramos o sucesso da viagem nos embriagando com bombons de licor. Bem coisa de menina!

Essa e outras histórias estão no livro: Cicloviagens 2013. Acessível em: https://clubedeautores.com.br/book/175067–Cicloviagens_213#.VJBAJ-k5CHt

[Nota do blog:] se você vai pedalar pelas cidades do Circuito das Araucárias, pode consultar campings, pousadas e hotéis nos links abaixo:


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