Cicloturismo: de Parnaíba (PI) a Jericoacoara (CE) – relato (parte 3)

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Segundo dia: de Cajueiro da Praia (PI) a Camocim (CE)

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Foi assim que começou o dia. Uma das mais belas visões e recordações da viagem. Cheguei às 6 em ponto na praia. Na verdade, era barra do rio Timonha, que separa o Piauí do Ceará. Andei um pouco pela praia, e não encontrei o pescador com o qual havia combinado a travessia. A maioria dos barcos estava na areia, pois a maré havia baixado bastante. Assuntei com alguns pescadores que encontrei por lá sobre a travessia, dizendo que havia sido abandonado por um de seus colegas. Logo, 3 deles disseram que estavam saindo pra pescar, e se dispuseram a desviar de sua rota, me levando ao outro lado, para a praia de Bitupitá (que alguns chamavam Itupitá). O barco deles era o único em condições de sair naquele momento. Caso contrário deveria esperar até 9, 10 da manhã para poder prosseguir. Me apressei e fui com eles. “Seu” Marcos, Raimundo e Antonio José me levaram remando, por mais ou menos 1 hora. A travessia foi linda: o sol nascendo, paisagem maravilhosa, água verde e muita prosa. Falaram da rotina de pescador, do rio, do peixe-boi (o rio Timonha é o local que abriga um projeto ambiental do Peixe-Boi), das coisas da cidade. Se mostraram interessados na minha viagem, perguntaram sobre o percurso percorrido e falaram o que sabiam sobre o caminho que viria. Me disseram que era possível chegar pela praia até Camocim. Era o bastante.

No barco a remo, rumo ao Ceará

Chegando ao outro lado, agradeci a meus amigos, paguei pelo transporte (o preço foi combinado – R$40) e as 7:15hs da manhã começava a pedalar. Um silêncio maravilhoso, pouco vento, sol ainda fraco e uma paisagem deslumbrante. Distantes bancos de areia em meio ao mar confundiam a visão do horizonte, antes acostumada ao azul infinito. Chegara ao Ceará com o pé direito. A maré baixa, ideal para pedalar, e um caminho desconhecido pela frente.

Bitupitá: aqui começa o Ceará
Bitupitá: aqui começa o Ceará
Areia e mar se misturam no horizonte
Banco de areia em alto mar: areia e mar se misturam no horizonte

Depois de pedalar por alguns quilômetros sozinho, avistei um pequeno vilarejo e barcos de pescadores no mar. Sempre parando e me informando sobre o percurso. A medida em que passavam as horas o sol ia ficando mais forte, e a pedalada mais cansativa. Parava sempre que tinha vontade, para fotos, comer ou um banho de mar.  Depois de muitos quilômetros sozinho cheguei a Praia Nova, onde havia uma pequena vila de pescadores. Lá descobri ter passado por uma praia chamada Curimã. Foi um momento crucial da viagem, onde tive uma bela experiência e uma boa dose de sorte.

Sem estrutura turística: duante vários quilômetros, apenas vilas de pescadores
Sem estrutura turística: durante vários quilômetros, apenas espaçadas vilas de pescadores

Estava cansado, com fome e sede, e preocupado com minhas reservas de água. Tinha ainda 2 litros (dos 5 que carregava), mas não sabia nada sobre o percurso que ainda me restava, uma vez que seguia pela praia e longe de qualquer sinal de estrada. Resolvi recarregar as reservas de água, parar, descansar, fazer um lanche. Inicialmente conversei com alguns pescadores que estavam  na praia, e me disseram que pouco a frente havia a barra do rio dos  Remédios, a última a ser transposta de barco em meu percurso até Camocim. Essa era a boa notícia. A má foi quando disseram que não havia ninguém por lá e que não haveria como atravessar. Uma de minhas opções era pedalar mais uma hora estrada a dentro até chegar a Barroquinha, para então seguir pelo asfalto. Essa possibilidade me desanimou um bocado, e fiquei por um tempo sem saber o que fazer. Perguntei por um mercadinho, e me indicaram uma casinha de barro com teto de palha. Subi um pouco a areia fofa e percebi melhor a vila, que não passava de 5 ou 6 casas nessa  mesma condição, alguns porcos, e apenas uma camionete velha, em meio a muita areia e dunas. Muitas crianças, jovens, poucos idosos. Era uma vila muito pobre. No mercadinho não tinha água, só agua de poço. Recusei educadamente e pedi 2 litros de uma tubaína desconhecida, que me ajudou a devorar uns pacotes de biscoitos. Eu parecia um verdadeiro E.T. naquele lugar. Todos me olhavam sorrindo e com curiosidade, e conversei um pouco com eles, contando sobre a viagem, mas simplesmente não tive coragem de tirar nenhuma foto. Durante toda a viagem fiquei impressionado com a disponibilidade de todos que encontrei em meu caminho. Sempre se dispunham a me ajudar seja com informações ou nas travessias. Em Praia Nova, meu dinheiro valia muito pouco ou quase nada. Pouco tempo depois de descansar e de algumas conversas, dois jovens disseram que me atravessariam a barra dos Remédios. Ao perguntar disseram que me cobrariam 15 reais. Eles pegaram suas bikes e me acompanharam por 5km até o ponto da travessia. Foi a única travessia que não filmei, pois o pequeno barco balançava muito e quase tombou por diversas vezes. Passei todo o tempo (que foi rápido, uns 5 min mais ou menos) preocupado em segurar a mim e a bicicleta.

O pequenino barco no qual atravessei a barra do Rio dos Remédios
O pequenino barco no qual atravessei a barra do Rio dos Remédios

Quando a maré encher

Já do outro lado, prossegui minha viagem, sem saber o que me aguardava. Os jovens me disseram que pedalaria mais ou menos por mais 3 horas até Camocim, mas que podia ser atrapalhado pela maré que estava enchendo. O trecho do segundo dia era bem desabitado, comparado ao primeiro. Pedalei por quilômetros sem encontrar nenhuma pessoa, e sem saber dizer o nome das praias ou localidades. Descobri que ao optar por fazer a travessia (ainda em Cajueiro) de barco e seguir pela praia, deixara de passar por duas cidades: Chaval e Barroquinha, que ficavam um pouco afastadas da praia. Mais tarde vi também que com isso havia “economizado” pelo menos 30 Km, pois as estradas de asfalto dão uma volta muito grande para contornar os chamados “braços de mar” (locais onde fiz as travessias de barco).

Estava com apenas 2 litros dágua, e minha visão do horizonte sem sequer uma vila ou casa me fez decidir pelo racionamento. Mais a frente, uma grande obra de coletores de energia eólica. Verdadeiros cata-ventos gigantes a beira mar.

Praias desertas rumo a Camocim: plantação de cataventos
Praias desertas rumo a Camocim: plantação de cataventos

Alguns tempo depois percebi que estava chegando perto de algum lugar, pois avistei um carro correndo pela praia. A maré enchia cada vez mais, me obrigando a dar grandes voltas para contornar “lagoas” mais profundas que se formavam. Comecei a ter de descer para empurrar por várias vezes, e outras a pedalar práticamente dentro d’água.

A situação estava ficando crítica. O sol forte, o cansaço. Já avistava um local habitado, onde pararia para descanso. Isso me fez relaxar um pouco com a água, passando a me hidratar mais tranquilamente. Quase no final, com certeza o momento mais broxante de toda a viagem. Ao atravessar uma lagoa um pouco mais profunda, me esqueci que estava com os bolsos da camisa de ciclismo cheios. Percebi rapidamente, mas já tinha molhado a câmera, celular e carteira. O celular começou a vibrar e esquentar muito, me obrigando a arremessá-lo na areia para soltar a bateria. A câmera se apagou. Nesse momento não me contive. Estava exausto, num calor danado, doido pra chegar em um local que nem sabia ainda onde era. Comecei a praguejar, grintando muito. Já tinha me esquecido que sabia uma variedade tão grande de palavrões e praguejei talvez num dos lugares mais bonitos que já praguejei na vida.

A última foto antes do acidente com a câmera: cansaço
A última foto antes do acidente com a câmera: cansaço

O momento foi de catarse. Depois disso, só pensava em chegar, e estava bem próximo. Pedalei por mais alguns quilômetros, constantemente atormentado pela idéia de perder todo o registro da viagem, hora ou outra me conformando com o valor daquela experiência.

O dia havia se iniciado as 6 da manhã ainda no Piauí. Por volta de 1 hora da tarde e 45km depois havia chegado finalmente na Praia de Maceió. Entrei no primeiro restaurante à beira mar. Encostei a bicicleta, tomei uma chuveirada, coloquei as roupas e objetos eletrônicos estragados no sol e tive meu banquete de rei. Um litro de suco de abacaxi, peixe, batatas fritas. Não queria saber de mais nada. Depois, um cochilo na rede até as 3 da tarde. Descobri que estava a 15km de Camocim, o que revigorou meu ânimo. Fiquei mais feliz ainda quando descobri que em Camocim poderia pegar uma balsa e pedalar até Jericoacoara. Mesmo tentando esconder de mim mesmo, tinha Jeri como objetivo final da minha viagem, no terceiro dia. Terminei o trecho por uma estrada calçada, passando pelo Lago Seco, e chegando ao meu destino após 60kms pedalados.

Não bastasse todo o sufoco de pedalar sem saber onde ia chegar, custei pra arrumar uma pousada, pois era fim de semana e a cidade estava lotada. Depois de muito procurar e quase cogitar em armar a barraca ao lado do posto policial, meu destino final: Pousada San Carlos, ao lado da rodoviária.

Era o fim do segundo dia.

Resumo do dia

Trecho: Cajueiro da Praia (PI) – Camocim (CE)

Distância percorrida: 69,20km

Velocidade média: 10,5km

Caminho em Cajueiro até pegar o barco: +- 2km

De Bitupitá ate a Praia de Maceió: +-43km

Da Praia de Maceió até Camocim: 15km

Passeio por Camocim: +-10km

Sequência das praias e lugarejos: Muitos deles desertos e não soube o nome, mas passei por Bitupitá, Curimã, Praia Nova, Barra dos Remédios, Praia de Maceió, Lago Seco e Camocim.

Acompanhe abaixo todos os posts dessa cicloviagem

Parte 1 – Planejamento da viagem

Parte 2 – de Parnaíba (PI) a Cajueiro da Praia (PI)

Parte 4 – de Camocim (CE) a Jericoacoara (CE)

Video da Cicloviagem entre Parnaíba (PI) e Jericoacoara (CE)

Cicloturismo e fotografia: fotos do caminho entre Parnaíba (PI) e Jericoacoara (CE)

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2 COMENTÁRIOS

  1. PÔ MUITO BOM!!
    AGORA IMAGINA EU MORANDO AÍ, BEM PERTINHO DE ONDE VOCÊ VISITOU?
    POIS É EU TENHO UMA CASA EM PARNAIBA PI . NO MOMENTO ESTOU RESIDINDO A OITO MESES EM BRASILIA DF.
    HA!! COMO SINTO SAUDADES DA MINHA TERRA, DA BRISA SALGADA E PERFEITA EM MEU ROSTO, DO VENDO , DA AREIA , DO SOL… EM FIM DE TUDO. OU MELHOR DA MINHA VIDA.
    FOI MUITO BOM RELEMBRAR, OBRIGADO!!!
    E BOAS OUTRAS VIAGENS.

  2. Pôxa, mt massa sua aventura, pratico mountain bike aq em minha região, interior do Ce, e tenho mta vontade de pegar a bike e sair pedalando. Um gr abç

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