Cicloturismo: de Três Pontas (MG) a Ubatuba (SP)

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Foto: acervo pessoal Alecxander Rabello

Por Alecxander Rabello

Realizar uma longa viagem de bike, transpondo os próprios limites, seja de distância ou tempo pedalando, e ainda chegar à um destino ímpar, passando por belos vales, serras e estradas às vezes desertas, às vezes lotadas… Esta é a prévia do que poderá ser encontrado nesta extraordinária opção de cicloviagem, no qual o relato à seguir tenta resumir e incentivar futuros ciclistas aventureiros.

A equipe CicloTP (Alecxander, Digão e Daniel) realizou em meados de agosto de 2011 uma belíssima viagem, saindo de Três Pontas-MG, com sentido ao litoral norte paulista, mais especificamente Ubatuba-SP. Em um percurso de 450 km, percorridos em 3 dias, realizando uma média de 150 km diários. Numa viagem estudada e planejada antecipadamente, como não poderia de ser… Oquê possibilitou que fosse plenamente cumprida, e o melhor: sem imprevistos indesejados, e com toda segurança e animação dos integrantes da equipe.

Primeiro dia de viagem: saída de Três Pontas

A viagem deu-se início em Três Pontas (sul de MG) no dia 18 de agosto de 2011, às 6:30 da manhã, quando o sol ainda raiava, mas já dava pra prever que seria um excelente dia de pedal, visto que a previsão de tempo limpo e temperatura amena se concretizava com o firmar do sol no horizonte. Pedalando sentido à Santa Rita do Sapucaí-MG, onde seria o local de repouso no fim do primeiro dia, pegamos a primeira, e talvez a única temida rodovia, devido ao trânsito e à falta de acostamento, a MG-167, em seus 26 Km que ligam Três Pontas à Varginha. Como era uma quinta-feira, de pleno movimento, optamos por um horário que analisamos ser mais tranquilo. E o planejamento funcionou, pois até a metade do caminho, onde haviam mais curvas e trechos perigosos, o movimento foi bem tranquilo, e depois, no restante, a rodovia já possuía alguns escassos acostamentos, mas já eram bem menas as curvas, o que gerou tranquilidade e o fim da ansiedade inicial da viagem.

À partir de Varginha, fomos brindados com o bom acostamento da BR-491, e rapidamente já estávamos na Fernão Dias com sentido à Pouso Alegre, onde temos que destacar: o pedal rende muito! Há pouquíssimas subidas fortes, e as longas retas, com inclinações suaves, possibilitaram que estivéssemos em Pouso Alegre às 12 horas! Isso, se não fosse 1 pneu furado e umas 3 paradas adicionais para reabastecermos as garrafinhas de água, pois o tempo estava bem seco.

Já que tínhamos adiantado bastante a viagem (já com 140 km dos 160 totais programados do primeiro dia), relaxamos no restaurante Balança II, e aproveitamos para almoçar e fazer a sesta antes de prosseguirmos para Santa Rita.

Na BR-459, a rodovia parecia um “tobogã” gigante cortando as montanhas, bem diferente da BR-381, por sorte havia muito tempo sobrando até nossa previsão de chegada em Santa Rita para as 16 horas, então diminuímos o ritmo, aproveitando para já descansar para o próximo dia. Chegando em Santa Rita do Sapucaí, cidade pequena, mas muito acolhedora e bem cuidada, fomos gentilmente recebidos no hotel previamente contatado. E depois de um primeiro dia de pedal tranquilo e de rendimento acima do esperado, foi possível relaxar bem cedo também.

O segundo dia

Para o segundo dia já esperávamos um pouco mais de dificuldade, visto que teríamos de subir a Serra da Mantiqueira no meio do caminho até o destino: Aparecida-SP. Portanto já às 8 horas estávamos prontos pra seguir sentido à Itajubá, e daí por diante tínhamos um carro de apoio nos acompanhando, o que é imprescindível para longos percursos, como era o nosso caso.

Os 40 km até Itajubá, passando por Piranguinho (capital do pé-de-moleque), segue pela mesma “estrada tobogã” citada anteriormente… E devido ao sobe-e-desce é bem cansativa… Mesmo assim rendeu bastante, aproveitamos para uma rápida parada num dos quiosques que vendem pé-de-moleque (uma delícia!), e chegando em Itajubá, tivemos que atravessar a cidade inteira para acessar a rodovia sentido Wenceslau Braz (WB). Após Itajubá acaba o acostamento, e a estrada vai se estreitando pouco-à-pouco nos 17 km até chegar em WB, onde fizemos um lanche, no único mercadinho aberto ao meio dia! Um salvador pão com salame acompanhado de uma coca-cola geladíssima! Daí por diante, foram 30 km de subida serpenteando a Serra da Mantiqueira, por uma tranquila estradinha, entre a vegetação e os ruídos das várias cachoeiras e pássaros. Vencemos com 1 hora e 15 minutos! E lá estávamos: no alto da serra, numa lanchonete de um posto de gasolina, onde nem celular pega! E depois de um breve descanso e outro lanche, demos início à descida da apelidada “Serra do Piquete”, tem torno de 20 km só de descida, hora por trechos curvilíneos e íngremes, hora por trechos mais suaves, onde se encherga a estrada ao longe com suas longas curvas. A paisagem por lá é sensassional! Com seus vários mirantes, onde se avistam a linda cadeia de montanhas da Mantiqueira, e ainda nos brinda com cachoeiras pela descida. E é lá também que se encontra a divisa dos estados MG-SP. Nesta descida é possível se atingir altas velocidades, mas é necessário muito cuidado, pois já há um movimento mais acentuado de veículos que seguem para Delfim Moreira. Fizemos até um filme, que foi editado e já está disponível aqui mesmo no blog (link).

Chegando no fim da descida da serra paramos em Piquete para aguardar o carro de apoio que vinha um pouco atrás, e logo em seguida já estávamos pedalando pelas longas retas da estrada que liga Piquete-SP até Lorena-SP (continuando pela BR-459), onde seria o início da nossa pedalada pela rodovia Presidente Dutra.

Infelizmente neste trecho também não há acostamento, e o movimento é muito intenso, tando de carros, quanto de caminhões e ônibus. Com a atenção redobrada, apertamos o passo, ou melhor, a pedalada, e rapidamente atravessamos os 17 km até Lorena-SP. Nesse ponto já eram 2:30 da tarde, paramos para abastecer de água e seguimos sentido Aparecida-SP por mais 20 km de uma Dutra de tráfego pesado, um bom acostamento, porém com longas pontes estreitas, sem acostamento, onde haviam estreitas pontes paralelas, definitivamente não planejadas para ciclistas, e que, imagino que até para pedestres não eram muito apropriadas!

Chegando em Aparecida-SP, avistamos a basílica já de longe, ainda na Dutra. A emoção era crescente, e mesmo já tendo visitado o santuário em outra viagem de bike, a sensação é diferente à cada ida! Já estávamos bem próximo, quando fomos obrigados à mais uma pausa, para mais um reparo de pneu. Com a ajuda do Daniel (que praticamente fez tudo), a bicicleta do Digão ficou pronta e seguimos por mais alguns poucos quilômetros até o hotel, onde o nosso descanso do 2º dia já havia sido reservado. No segundo dia completamos mais 150 Km pedalados. Reservamos também um tempo, para que pudéssemos seguir até o santuário e agradecer por todo o caminho já percorrido e pedir por proteção para o restante, no terceiro e último dia de pedal.

Terceiro dia: a chegada

No terceiro dia de pedal, já tendo acumulando 310 km pedalados, o ânimo de todos parecia ainda maior, pois além do fato de estarmos prestes à completar o percurso, também realizaríamos o sonho da descida pela serra do mar, um local mítico e empolgante para qualquer ciclista e admirador da natureza! Já eram 8 horas quando saímos de Aparecida, sentido Taubaté por 40 km em uma Dutra como sempre bem movimentada… Esse trecho rendeu bastante, apesar das várias pontes pelo caminho, algumas bem longas, e como dito anteriormente possuindo pontes paralelas bem estreitas, próprias para a passagem de pedestres… Passar por elas de bike exige cuidado e firmeza, pois qualquer esbarrão nas laterais estreitas pode derrubar o ciclista! E algumas destas pontes são bem altas! Na entrada de Taubaté já se encontra o trevo para São Luís do Paraitinga e Ubatuba. Fizemos uma pausa rápida para aguardar o apoio que veio logo em seguida.

Essa estrada sentido Ubatuba, a SP-125 (ou Rod. Oswaldo Cruz) é bem estilo tobogã também, com muitos altos e baixos (muitos mesmo!!), porém o asfalto é muito bom, e possui um ótimo acostamento para os ciclistas. São mais ou menos 95 km até se atingir o alto da Serra do Mar. Há muitas lanchonetes e barraquinhas pelo caminho, o que permitiu que ficássemos tranquilos quanto aos reabastecimentos de água e lanches. Esse trecho rende bem até chegar em São Luís do Paraitinga. Depois é que as fortes subidas começam a complicar. No nosso caso, foram 60 km com chuva, vento frio e nevoeiro, diga-se de passagem: situação bem comum nesse local! Devido à tudo isso, o ritmo diminuiu um pouco… Paramos apenas para colocar os trajes de frio e chuva, e foi nessa hora que vi o quanto os paralamas ajudam! A quantidade de água e sujeira que os pneus espirram (apesar de finos) é impressionante! Como somente eu estava munido deles, acabei beneficiado pelo suposto excesso de cautela, pois não havia previsão de chuva para aquele fim de semana.

Tivemos sorte ao alcançar o topo da Serra do Mar, chegando lá a chuva já havia se abrandado, tornando-se uma leve garoa, deixando somente o nevoeiro e o asfalto encharcado. Talvez por causa desta chuva o movimento de veículos na descida da serra foi bem pequeno! O nosso apoio também deu uma grande ajuda, segurando um pouco o trânsito. Apesar de que, a velocidade em que descemos de bike foi bem rápida, e acredito ter sido em certos pontos superior à dos veículos! A única lamentação foi não ter podido filmar a descida desta serra, pois minha câmera não é à prova d’água! Mas o que posso dizer é que foi sensacional! Para se ter uma idéia, Daniel, que adora a velocidade e adrenalina das fortes descidas ficou maravilhado! A forte inclinação, somada às inúmeras curvas em 180º (isso mesmo!), em meio à exuberante mata Atlântica e cachoeiras foi realmente… Sem palavras! Foi tão bom que os 8 km passaram num piscar de olhos, e já estávamos nos últimos 10 km que nos levaram até colocar os pés na areia da Praia Grande em Ubatuba!

Três Pontas a Ubatuba
Foto: acervo pessoal Alecxander Rabello

Comemoramos muito! Enxarcados de água e areia, mas com a alma lavada pelo objetivo completo! Sem contratempos, nem imprevistos, tudo correu maravilhosamente bem! O planejamento, treinamento, paciência e principalmente o companheirismo, foram os alicerces para essa conquista! Deixando com tudo isso, a vontade de uma breve repetição desta aventura e sonhos para novos pedais!


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1 COMENTÁRIO

  1. Caraca mano! Belíssimo relato! Deu até vontade de sair pra pedalar agora!!! Fuiiii!!!

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