Crônica de um pedal urbano em Sampa

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Por Dionilson Xavier Santos

Crônica de um pedal urbano em Sampa

Quinta feira. Cheguei na minha casa as 21:00hs. Ficar sozinho em casa, dar uma pedalada ou ver TV? Fiquei com segunda opção. Liguei para o Carlão .

– E ai Carlão tudo bem, que horas vai sair o pedal de hoje ?

-Saímos as 21 hs. Ele respondeu.

-Beleza, estou precisando dar uma pedalada. Daqui a pouco estou por ai. Valeu!

Desliguei o telefone e fui atrás de uma bermuda, tinha vinte minutos para chegar . A galera é radical, chegou atrasado perdeu o trem.

Troquei a camisa por uma camiseta esporte, o sapato pela tênis. Peguei duas fatias de pão , despejei um pouco daquela imitação de mel chamado Kero, era o que tinha no momento. Enchi um copo de coca cola, virei garganta a baixo e tossi . cof, cof, cof. Eu tinha um cachorro que começou com uma tosse assim… kkkkkkk. Enfiei o capacete na cabeça , peguei as luvas e ganhei as ruas.

A noite estava de inverno, uma leve brisa fria sussurrando através dos carros.

Desci a Henrique Schaumann , segui pedalando feliz pela Av. Brasil. O céu estava azul contrastando com a verde oliva das arvores em silêncio. Há uma certa tensão nos motoristas. Bocejam, mudam as marchas de seus carros e seguem com seus rostos frios ou vermelhos tentando nos convencer que o excesso de maquiagem é pele saudável. Seguem feito máquinas atravessando faróis, olhando ao redor com um certo escárnio. São almas ingênuas, com certificados e diplomas garantidos pela publicidade de consumista urbano. Gosto de vê-los se sentindo os rebeldes do acelerador.

Cheguei em frente ao Clube Paulistano. Tinha uma turma grande aguardando o chefe. Um grupinho formado por mulheres sorriam felizes, gosto disso. Deviam estar falando de receita de bolo, política, ou algo do gênero. Os homens estavam dispersos e pensativos como sempre.

Foram chegando mais ciclistas, em questão de segundos estavam todos ali. O chefe chegou de carro, pediu para tirarmos duas bikes estacionadas onde ele ia por seu automóvel . Estacionou, tirou sua bike do porta malas, montou e alertou.

– Hoje vai ser pedal rápido, distancia e velocidade. Vi olhos se arregalando, e beleza.

O pedal de quinta é CAVEIRA. O lema é assim. “ VAI QUEM QUER, CHEGA QUEM PUDER “. Ui que medo. A verdade não é nada disso, só exige um pouco de pratica no ciclismo, isso é obrigação e não terror. E blá, bla´, blá.

Partimos, eba, será que é divertido ser líder ?kkkkk .Tô fora. Um é bom, dois é porque um estava ausente , mais que isso é três, ai, fala você o que acha ou pergunte pro líder…kkkkkk

Seguimos pela Av. Brasil, encontramos outro grupo de ciclistas parados no farol da 9 de Julho. Seguimo sem frente. Antes de chegarmos no porque do Ibirapuera , um motorista saiu da faixa da esquerda , entrou no meio do grupo . Vi o cara entrando e não acreditei. Gritaram com ele para ele ter cuidado, mas não adiantou, o cara estava com a namorada. Devia estar querendo mostrar poder, mostrar que era macho pra impressionar a garota. Baixinho e Pinto pequeno, são fodas, melhor nem discutir.

Pedalei ao lado dele e falei sem alterar a voz.

– O que você esta fazendo, você entrou no meio de um gripo de ciclistas acelerando, poderia ter atropelado alguém…

– Eles não iam nos deixar virar na Republica do Libano. Respondeu.

– Era só você ficar na sua faixa da direita. .

– Não entendi ? falei pra ele.

Virou o rosto para a garota. Na sequência me devolveu .

– Vocês são um bando de folgados. Respondeu, fechou o vidro e saiu acelerando pela lateral direita do parque.

Entramos no parque do Ibirapuera.

O silencio encantador do lago, as sombras escorrendo pelas ruas, paz e segurança, nos alertou. Estávamos dentro do parque. A liberdade esquecida a pouco sorriu docemente enquanto atravessamos feito flecha por suas árvores.

Ganhamos as ruas novamente. Saímos do parque. O calor de Co2 invadiu os pulmões na voltas às ruas. Subimos a Borges lagoa sentido a Vila Mariana, entramos a direito , viramos uma ruas e descemos pro Ipiranga. Na Ricardo Jafet, parei para encher o pneu de uma ciclista novata. Eu vinha dando apoio pra ela, a bike dela não ajudava muito. O transito estava pesado e com uma bike que não ajuda é bem pior. Pedalar é liberdade e como tudo tem riscos e obrigações. Paramos para calibrar o pneu. O chefe veio que nem abelha enlouquecida pra cima da gente. Mandou aquele discurso de chefe .

– Xavier já falei que não é para parar para encher o pneu de ninguém, isso já foi falado e não vamos esperar. O pedal é caveira e vem…etc, etc, etc… rs.

– Não esquenta, é que o pneu dela esta muito murcho, ela não tem experiência. Daqui a pouco encontramos vocês, não esquenta, relaxa…

Coloquei 60 libras no pneu dela. Arregalou os olhos, como se fosse tivesse visto um fantasma. Falou que ia explodir.

– Pedala agora. Falei pra ela.

Saiu se sentindo numa Ferrari. Saímos os dois em meio aos carros em plena Ricardo jaffet . Cade a noção de grupo. A galera estava bem na frente. Silêncio e perguntas e ciclistas a serem alcançados, só quero me exercitar pedalando, não preciso de respostas sugestivas.

Encontramos o grupo no primeiro farol. Ouvi vozes admitindo o perigo deste trajeto. Tímido e apático cortamos a centro da cidade concentrados no grupo. Eu estava fazendo o trabalho de batedor no fim da fila. Atravessaram uma Av. com milhões de carros. Parecia uma manada de búfalos enfurecidos, buzinas e monóxido de carbono para todo lado.

Silêncio, abram as cortinas…

Enrolei você leitor até aqui, porque esta é parte mais importante desta história. Este é o momento do drama, a hora da tensão, do fantasma da morte. Morte isso mesmo, minha morte. Chega de conto com final bonitinho, o carro da foice esta vindooooo.

Eu estava dando suporte para os ciclistas, pedalando no final da fila . Atravessaram uma Av. com milhões de carros. Parecia uma corrida de motores enfurecidos, buzinas e monóxido de carbono para todo lado.O céu estava azul e apático, muitas nuvens cinzas passeando perdidas no céu.

O grupo atravessou no sinal verde, o amarelo abriu as pernas rapidamente e numa fração de segundos … Vermelho.

Bateu o farol vermelho e estávamos em três ciclista no meio da pista. Eu estava entre o Celso e uma gata loira, se morrer agora espero que ela suba comigo, quem sabe pode ser divertido lá em cima….rsrs.

O carro estava vindo a mais de 140 Km, o filho da puta esta acelerando, e não tinha como parar. Começou a reduzir, mas estava a vinte metros da gente, sem chance. Será que vamos tentar passar, não vai dar tempo. Ele não vai conseguir parar, fodeu. Olhamos uns para os outros. Paramos feito estatuas. Três ciclistas esperando a cagado do pombo. Venha seu cara de merda, um cabeçudinho qualquer decidindo a vida de três pessoas do bem. E o cara estava vindo mesmo. Quem disse que aproveitar o farol verde, sem dar tempo pro outro ser humano atravessar a rua é economizar gasolina? Quem ensinou este ser. Merda. Não tem leito suficiente nos hospitais. Os médicos são doidos. Você fratura a orelha eles operam o seu pé, não quero iro pro hospital. O coração é um caçador solitário, o meu estava em busca de uma verdade pra justificar o amor, ou a morte talvez. Deserto, frio, lama, realidade e não temos pra onde correr. Nuvens, os astros entretidos apostando no colhedor de almas. Três almas, eu pago vinte que a loirinha se salva! Ou será que desta vez o negro vai se sair bem? Duvido, nem no céu apostam nos negros. Desta vez fodeu, não vai sobrar nem bracinho, nem perninha intactas. Quero ver quem vai para penitencia no céu.

Os anjos estavam se divertindo enquanto o motorista mantinha a máquina da morte veloz em nossa direção. Numa fração de segundo o monstro de lata desviou levando morte com ele, seguindo veloz em busca da próxima vitima. Ufa, não foi desta vez.

Olhei pro Celso. Balbuciou alguma coisa, mas não lembro o que. O cara tinha acabado de ver um fantasma, eu vi uns anjos fazendo apostas. A loirinha abriu um riso de flor, que linda, será que lá no andar de cima eu teria uma chance com ela? Pode ser um bom negocio o andar de cimas. Pode ser que lá seja um grande tédio, e, sei lá. Sei que estávamos vivos, ufa, difícil a realidade humana.

Refleti sobre a perda da liberdade. O pior não deve ser morrer ,e sim saber que estão vendando jornais com a sua partida. Você lá no paletó de madeira, sem nenhuma verdade. Esticadão no maior frio, e os carras falando que você era um baita cara legal, que daria um bom pai de família, que plantou a árvore, publicou livro e tal. Tudo pra vendar jornal e se aproveitar do seu silêncio. Só de imaginar fico com asma, urgh.

Pedalamos mais um pouco. Paramos numa lanchonete para comer cachorro quente. Pedi um sorvete. Nenhum comentário a respeito. Este é o ócio da vida. Um amigo ligou. Tinha brigado com a namorada. E vida louca… A gora sim voltei a realidade. Briga de casais, má alimentação, cerveja e cachorro quente após uma pedalada.

Olhei pro céu, celebrei a vida tomado de felicidade. Atravessamos avenidas com milhões de carros enfurecidos. Buzinas, monóxido de carbono para todo lado. Rodamos observando o céu azul e apático, nuvens cinzas a morte passando tão veloz quanto um piscar de olhos. Fazemos parte deste todo. A bike precisa da gente, a vida de aventuras.

Despedi da galera e sai pedalando. Meu amigo estava precisando conversar. As mulheres são boas no nocaute.
Virei uma rua a direita o mais rápido que pude. Nenhuma expressão verbal foi preciso para exaltar a noite, a luz ou Deus. Foi só mais um dia de ciclista com sua aventura humana, numa quinta feira luz, diante de um céu cinza, alguns carros enfurecidos e quem sabe poderia ter sido uma grande farra com a loirinha no céu. hummmmm…

O autor.

pedal urbano em Sampa
D’Xavier ( Santinho )
17/03/2015

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