Downhill na Estrada da Morte / Bolívia: o pedal que transforma pessoas.

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Foto: acervo pessoal Cléber Magalhães Tobias

Por Cléber Magalhães Tobias

Eu sabia que não voltaria o mesmo depois desta pedalada, mas não imaginava que seria tanto!

Tudo começou quando eu e mais dois colegas de trabalho resolvemos mochilar pela América do Sul, Argentina-Bolívia-Chile-Peru mais precisamente. Cada qual com seu objetivo. 1) Travessia em Jeep 4×4 do maior deserto de sal do mundo, o Salar de Uyuni no sul da Bolívia; 2) Trekking até Machu Picchu, no Peru; 3) Downhill na estarda da Morte, na Bolívia. Não preciso nem dizer que o terceiro ponto é o que me representa.

Foi um ano de planejamento para pouco mais de 20 dias de viagem. Mais de 15 cidades visitadas com a mesma gana – a busca pelo maior nível de adrenalina que pudesse alcançar. Pesquisamos, economizamos, conversamos muito em nosso grupo de sonhadores. Sim! Grupo. Pois toda viagem, toda pedalada que fizemos não se resumem apenas àqueles que colocam o pé na estrada, ou no pedal. Não podemos esquecer de todos os outros que ficam na expectativa da boa notícia, na apreensão da volta e no contentamento do dever cumprido.

Digo isso, porque no meu caso específico tive um amigo/irmão que esteve sempre ao meu lado na hora do planejamento, um cara excepcional na arte da edição de vídeos, e que estava pronto para fazer todo o trabalho de materialização do que produziríamos ao longo do mochilão. Ele decidiu em não viajar conosco, pois apresentava sérios problemas respiratórios que poderiam comprometer ainda mais sua saúde, pois enfrentaríamos a tão temida altitude boliviana, o que poderia tornar-se um problema para ele.

Mas vamos contextualizar a parte técnica do nosso percurso.

A Ruta de La Muerte

Foto: acervo pessoal Cléber Magalhães Tobias
Foto: acervo pessoal Cléber Magalhães Tobias

A Ruta de la Muerte, ou Estrada da Morte como é mais conhecida por nós brasileiros, é uma antiga rota que liga a cidade de La Paz à Coroico na Bolívia. Famosa pelas perigosas condições de estrutura, a estrada é toda encascalhada com 3 metros de largura, curvas extremamente acentuadas e que oferecem um visual deslumbrante, pois de um lado o ciclista encontra um paredão coberto de vegetação, enquanto do outro, precipícios que podem chegar até 600 metros de altura.

Com esse visual todo o local é muito frequentado por aventureiros do mundo todo, principalmente pelos amantes do ciclismo. As condições climáticas e geográficas deixam a descida muito atraente. O Downhill inicia a mais de 4700 metros de altitude e termina com altitude de 1200 metros. São pouco mais de 70 km de muita velocidade e adrenalina pura. O visual inclui desde picos nevados, onde a temperatura chega tranquilamente abaixo de 0º, até a floresta amazônica boliviana, onde a pedalada termina com um delicioso banho de piscina e uma temperatura ambiente de aproximadamente 30º.

As descidas geralmente são realizadas por empresas especializadas que oferecem toda a estrutura, desde guia profissional, bikes, materiais de segurança, café da manhã, almoço até camiseta e CD com as fotos do percurso.

A tão temida Estrada da Morte chega a ser questionada por muitos, e você certamente ouvirá relatos antagônicos sobre o seu real perigo. O fato é que centenas de pessoas morreram neste local em décadas passadas, hoje em dia a estrada é muito mais utilizada por ciclistas aventureiros do que para trânsito pesado, embora ainda exista trânsito livre neste local.

Mas para mim o que tornou o local emblemático foi a história e expectativa criada em torno deste tão esperado pedal, pois no dia que antecedeu a nossa descida o meu grande amigo/irmão nos deixou, faleceu aos 27 anos. Mesmo ele tendo se precavido em abrir mão da viagem pelas condições climáticas (4700m de altitude), acabou não resistindo o inverno gaúcho de julho/2014. Mesmo abatido, mesmo com o coração apertado resolvemos fazer a descida. Mas desta vez com a certeza que não eramos apenas 3 mochileiros, mas 4! Certamente ele esteve presente conosco naquela descida. Eu costumo brincar que ele não aguentou esperar nossa volta para fazer a edição de todo o material, e preferiu unir-se a nós na tão emblemática Estrada da Morte.

O que me proponho a dizer é que o nosso pedal de cada dia, para muitos é apenas uma loucura de alguém que se propõe percorrer distâncias absurdas de bicicleta enquanto poderia ir de carro, no entanto, o que eles não entendem é que esta é a nossa opção de vida, e o que nos une é o prazer que todo o conjunto nos proporciona.

E afinal, quem volta de uma pedalada da mesma forma que partiu? Eu mesmo já sabia que não voltaria o mesmo, mas não imaginei que este pedal marcaria definitivamente a minha vida!

P.S.: Escrevo este texto apenas 8 meses após a pedalada, sexta-feira, 13 de março, pois hoje meu amigo Diovany Pires completaria 28 anos. O pedal continua sendo uma paixão com sentido cada vez maior para mim… a única diferença é que os vídeos insistem em continuar sem edição…

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1 COMENTÁRIO

  1. Fiquei sem palavras depois de ler seu texto, ao procurar mais informações sobre a Estrada da Morte… Que dureza passar por isso.
    Força nos próximos pedais!
    Beijos

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