Eu e minha bicicleta Helga, por Santa Catarina

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Foto: acervo pessoal Luã Olsen

Por Luã Olsen

Eu e minha bicicleta Helga, Por Santa Catarina

Havia encontrado um lugar para dormir. Armei a barraca na frente da igreja, deixei as coisas, peguei uma mochila e fui descolar um banho. O banho era a uns três quilômetros, na BR, num posto. Tomei o banho e, pelo trágico fato de ter esquecido a toalha na barraca, tive que me enxugar com a camiseta que utilizei durante o dia todo. Voltei e agora precisava descolar uma janta. Como era domingo, tive a impressão de ter entrado numa cidade de um filme de faroeste: não avistava ninguém nas ruas, o hotel (minha última opção nas cidades em que chegava) estava fechado e tudo o mais, claro, estava fechado. E já havia anoitecido.

Para acender o fogareiro que levava comigo, eu precisaria de álcool. Então fui a um boteco e pedi álcool líquido. Não tinha. Para não precisar comprar uma cachaça (e tentar fazer o fogo com seu alto teor alcoólico) resolvi pedir um lanche ali mesmo. Não tinha lanche. Céus, pedi uma cerveja e me acostumei com ideia de que não iria jantar naquela noite.

Nessa cidade os bares precisam fechar às 22h, e 22:05h uma viatura passou avisando que “tava atrasado”. Então as portas se fecharam, a clientela entrou no bar e uma meia-luz se fez. Ali, no meu canto, depois de contar a história da viagem para o proprietário, a mulher dele veio me perguntar se eu gostaria de jantar com eles. Aceitei e, em um cômodo apertado por detrás do balcão, espremido por uma escada que levava ao quarto, no pavimento superior, sentei-me numa das banquetas e, com o prato no colo, jantei. Jantei emocionado, claro. A mulher sentava-se noutro canto e o filho pequeno pra cima e pra baixo com o prato na mão. O marido cuidava dos beberrões no balcão. Feijão com chuchu, arroz e um pedaço de carne de algum outro dia era o prato da noite.

Uma tentativa frustrada de armar a barraca atrás da igreja foi feita, onde talvez fosse mais seguro, mas a escuridão e as sinistras torres com seus sinos me fizeram optar pela distante, mas eficaz, iluminação pública da fachada principal.

No dia seguinte, fui à prefeitura pedir algum material escrito e impresso sobre a cidade, hábito que adquiri para, de alguma forma, tentar justificar a viagem. Não só ganhei um livro como recebi R$10 para fazer “um lanche, tomar uma Coca-Cola..”. Apesar de não ser esse o propósito daquela visita, não neguei o dinheiro, já que estava precisando mesmo.

Ser confundido com um andarilho vagabundo era uma visão muito comum por onde eu passava, pois muita gente não conseguia entender o porquê de eu estar fazendo uma viagem de bicicleta e não de moto, ou mesmo de carro. Minha explicação, para quem me questionava, era curta e simples: “estou conhecendo meu Estado com minhas próprias pernas!”. Claro que meus motivos iam muito além: eu tinha um quê político comigo, subversivo, era um fora-do-esquema, um contestador no silêncio de minhas pedaladas. Tinha um quê muito pessoal também, de auto-conhecimento físico e psíquico e, por que não, sentimental. Tempo não me faltou para refletir e estive próximo da felicidade, vivendo em meu nomadismo temporário. Além do desapego: foram 32 dias vivendo com os mesmos 25 quilos de bagagem carregados na minha magrela.

Minha bicicleta, a Helga, com seus mais de dez anos de idade resistiu muito bem, sofrendo reparações aqui e ali: foi comprada em 2000, na cidade de São Bento do Sul, Planalto Norte de Santa Catarina. Recebeu acessórios e revisões antes da viagem, em Florianópolis. Câmbio dianteiro em Rio dos Cedros, câmbio e pneu traseiros em São Cristóvão do Sul, pastilhas de freio em Benedito Novo e em Curitibanos, novos pedais também em Curitibanos, câmara nova em Monte Castelo, remendo em Correia Pinto, caixa dianteira de aros e pneu dianteiro em Urubici, enfim, uma legítima catarinense, uma barriga-verde.

Após ir à prefeitura, nessa cidade misteriosa, visitei uma Escola-Estadual-Modelo de ensino fundamental e médio – há apenas três dessas em Santa Catarina. Em seguida, fui conhecer o velho prédio ao lado da igreja onde acampei e de onde ouvi berros a noite inteira. Trata-se de um edifício de três andares, onde no térreo funciona um hospital médico, no pavimento seguinte um hospital psiquiátrico e no último uma clínica de reabilitação de usuários de drogas. O edifício, que tem atendimento público e gratuito, recebe pacientes do Estado inteiro, mas sua estrutura é muito precária: por fora, roupas eram estendidas em varais improvisados nas janelas; por dentro, corredores frios e vazios. A internação na clínica para usuários de drogas é voluntária, sendo que alguns estavam cumprindo “cadeia” e eram obrigados a estarem ali. Não resisti em conhecer os três andares, e a moça, muito gentil, me levou no meio do pessoal, que logo foi se juntando ao redor, achando que era um novo interno. Quando foram informados que eu estava apenas viajando de bicicleta, um me chamou de “louco” e outro, com brilho nos olhos, quis que levasse um abraço a um parente em outra cidade, pela qual eu passaria. Assim que reencontrei meus óculos de sol, que estavam com o sujeito com faixa amarrada na cabeça (ele, naquele dia, achava que era o Rambo), pude então me despedir.

Voltei ao bar onde me haviam oferecido janta na noite passada. Coincidentemente, a senhora esposa do proprietário trabalha na limpeza do edifício do hospital. Ali no balcão, ouvimos do homem que bebia uma dose, já por volta do meio-dia, a história de um assassinato na noite anterior, com cinco tiros, de um sujeito que namorava a filha de um senhor (esse, o assassino, agora foragido). O motivo era fútil, e envolvia questões de preconceito racial. O atirador sofria de gagueira, e o bêbado imitava, com uma pistola imaginária em cada mão, os tiros dados: “fo-fo-foi co-com um tri-trin-trinta e oi-oioito!!”

Assim que o bebum se afastou, preenchi um cartão-postal da ilha, e na imagem apontei para a senhora que aquela era minha praia favorita, e que deveriam conhecer um dia. Entreguei para eles. Não lembro o que diziam aqueles escritos, mas certamente deixavam aquela família também de alguma forma tocada, ou ao menos aquele “piá”, que estava simplesmente fascinado com a possibilidade de viajar de bike mundo a fora.

Entreguei vários postais de Floripa por onde passei. Era uma forma de retribuir às famílias que me abrigavam ou me ofereciam refeições, ou que apenas me deram palavras de incentivo. Um forte vínculo se criava.

Eu e minha bicicleta
Eu e minha bicicleta Helga, por Santa Catarina. Foto: acervo pessoal Luã Olsen

Fiz alguns contatos, que certamente perdurarão por longo tempo. Tive um objetivo em mente que segui tal qual um religioso fanático: não pagar para dormir pelas vinte e tantas cidades por onde passei. Acabei pagando em duas de 32 noites. Não queria ficar em um hotel, onde eu tivesse que pagar por um serviço e pela comida. Parecia-me algo muito cômodo, coisa que eu estava absolutamente negando. Queria sentir a hospitalidade e a recepção, a boa ação se fosse possível. Pagar para dormir em um hotel seria quase como me abrigar em uma bolha e poderia aqui comparar com o carro, que é, evidentemente, uma bolha, com o qual locomove-se pagando pelo serviço do combustível. No meu caso de trânsito, minha gasolina foram minhas próprias pernas pelo percurso total de 1800km.

A cidade em questão era Bocaina do Sul, no Planalto Serrano. De lá, segui pra Rio Rufino, Urubici, Bom Jardim da Serra, para finalmente, atingir o único ponto que era certo nessa viagem: a mítica e perigosa Serra do Rio do Rastro, que na verdade foi até bem suave.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Li tua história no ano passado, pouco antes de fazer uma viagem, de bike, de Brasília a Blumenau; meu filho havia adquirido o teu livrinho (que me deu a ideia de fazer algo similar sobre minhas viagens).

    Lembro de ter ficado impressionado com tua aventura. Eu, talvez pela idade e comodismo, fico em hoteis e pousadas, procurando as mais baratas, sendo que às vezes tenho que conviver com baratas, literalmente, hehe.

    Muito inspiradora a tua história. Quem sabe a gente se encontra pelas terras catarinenses, pra onde devo ir nos próximos dias…. Abraços e sucesso. Sucesso pessoal, da melhor maneira para cada um…

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