Histórias curtas de uma longa viagem

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Foto: acervo pessoal Guilherme Tolotti

Por Guilherme Tolotti

Fui até onde deu pra ir de bicicleta. A percepção de distância pode variar dependendo do protagonista da experiência. Eu tinha preparo, boa bicicleta, bons equipamentos, tempo disponível e confiança suficiente para afirmar a todos que cumpriria o trajeto escolhido, que seria desafiador para muitos.
Porém, fui somente até onde deu pra ir. Eu não contava com os imprevistos, e no meu caso o imprevisto determinante foi o fator psicológico, ou seja, o stress mental e o despreparo em lidar com ele.
Este é meu primeiro texto neste interessante projeto, e inicialmente apresento apenas algumas anotações diárias, com reflexões significativas para mim, escritas durante um curto período dessa viagem. Eu as reeditei, pois as escrevi com poucas condições, a época insuficientes para tornar o texto agradável à leitura.

Foto: acervo pessoal Guilherme Tolotti
Foto: acervo pessoal Guilherme Tolotti

O psicopata

Estávamos Nelson e eu na estrada. Passamos por um homem que vinha pelo acostamento empurrando um carrinho com seus objetos, e logo mais tivemos que parar devido a um pneu furado. Quando o homem nos alcançou, travamos uma curta conversa. Em determinado ponto, quando o homem falava sobre caminhoneiros que não lhe davam carona, inflamou-se e afirmou: “Se eu pudesse matava um deles”. Queixou-se, também furiosamente, do tempo de chuvas. Pediu-nos café, dissemos que não tínhamos, e ele foi-se. Ficamos aliviados, pois seu comportamento revelava os distúrbios que sofria. Cada frase que dizíamos, por mais simples que fosse, era recebida com um olhar inquiridor, carregado daquele mesmo ódio já exposto, acompanhado do seu silêncio.
Depois desse encontro, ficamos torcendo para que nenhum caminhoneiro oferecesse-lhe carona.

Não liga que meu pai é pastor

Nelson tratava com Estevão detalhes do encontro a porvir, e Estevão revela-lhe: “Não liga, que meu pai é pastor. Quando você estiver aqui em casa verá algumas bíblias e livros religiosos, e como você é estudante de história, quis avisa-lo.” Suponho que Estêvão e a sua família já tenham sofrido preconceito devido à religião, mas Nelson e eu fomos respeitosamente conhecer a sua casa e lá nos hospedamos por um dia. Foi tempo suficiente para conhecer pessoas simples, educadíssimas, e participantes de obras sociais como deveriam ser todos, e não somente os religiosos. Conhecemos uma realidade muito diferente do estereótipo apresentado nos “shows da fé”, ou por profetas que ficam nas praças com uma bíblia na mão tentando nos convencer que a sua religião é a melhor.

O dinheiro é a minha religião

Partimos cedo no dia seguinte, Nelson, Estevão e eu. Tínhamos o objetivo de parar em Atibaia para o almoço na casa de uma amiga de Estevão, que havia nos convidado para o almoço. Deveríamos chegar às 13.00hs, e assim o fizemos, porém com um pequeno atraso pela dificuldade de localizarmos o condomínio. Ao chegarmos, ficamos todos surpresos com o local, que era muito diferente da simplicidade que eu esperava, pois ele conhecera a menina num encontro relacionado à igreja.

Aguardamos por alguns minutos na portaria, fomos recebidos e embarcamos em um carro em direção ao interior do condomínio, que mais parecia um bairro de luxo. Andamos talvez uns quatro quilômetros em um carrão SUV pilotado pela irmã mais velha da menina, que não disfarçava o incômodo que nossa presença lhe causava. Durante esse trajeto falou duas ou três frases, incluído o “olá” inicial. Quando chegamos ao destino, deparamo-nos com um ambiente que não pode ser descrito como suntuoso, mas era impressionante. No interior do imóvel, nos aguardavam, em uma mesa posta, a anfitriã (mãe da menina), e mais duas pessoas de idade, uma a cada lado dela. O homem, que estava de costas, ignorou a nossa presença, enquanto a mulher, de frente, apenas nos observou sem nada falar. A anfitriã cumprimentou-nos e perguntou se queríamos tomar um banho antes da refeição. Por respeito aos anfitriões, fomos tomar banho. Quando retornamos para o almoço, já nos sentindo pouco à vontade, nos sentamos mais à ponta da mesa, e assim que o fizemos, o homem e a mulher que lá estavam se levantaram. Quando iniciávamos a refeição, fomos informados pela dona da casa que em alguns minutos a família toda teria que sair, e que fôssemos breves. Durante essa refeição apressada, fomos bombardeados com perguntas bizarras que eram respondidas entre as rápidas garfadas. Fomos inquiridos sobre a origem de nossos recursos para realizar nossa viagem. Eu não perguntaria a ela de onde arranja dinheiro para pagar as contas da sua magnífica residência, todos sabemos que a educação não vem obrigatoriamente atrelada ao dinheiro que a pessoa possui.

Terminamos o almoço muito rapidamente para que a família pudesse dar andamento à sua rotina. O constrangimento máximo foi seguirmos com essas pessoas, em seus automóveis, até a portaria, pois as nossas bicicletas tiveram que ficar lá. Embora eu não tenha me sentido humilhado, pois achei até engraçado o ridículo da situação, essa experiência gerou muitas reflexões. Também não soubemos identificar o pensamento daquelas pessoas. A impressão que tivemos, é de que pensavam que éramos vagabundos ou mendigos. Fico pensando… qual a ideia desse convite? para ter algum assunto? para nossa anfitriã chegar à noite e dizer para o seu marido “sabia que enquanto você está trabalhando tem uns vagabundos andando por aí de bicicleta?”.
Minha conclusão do episódio é: seja cuidadoso quando te oferecem algo, pois nem todos fazem isso para apoiar.

Vou receber o candidato com água fervente

Após passarmos pela Serra da Bocaina, chegamos a Cunha. Fui o primeiro a chegar, enquanto aguardava meus companheiros, sentei-me ao meio-fio na entrada da cidade. Ali perto, uma mulher recolhia recicláveis, e ao me ver, aproximou-se e falou “vou receber o próximo candidato com água fervente”. Contou-me que tem duas crianças, e possuía um emprego já à doze anos, como gari da prefeitura. Quando assumiu o novo prefeito, ela foi mandada embora para que em seu lugar fosse contratado um partidário. No meio do ruído dos caminhões que passavam sequer pude saber o seu nome, mas ainda assim eu pude afirmar-lhe que escreveria contando a sua história.

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