Por que se aventurar de bicicleta?

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Esse é mais um texto que surgiu após uma pedalada. Como acontece desde o início do blog, há mais de 4 anos, minhas aventuras sobre a bike inspiram muitos dos meus textos que vou deixando por aqui, dividindo com os leitores.

Escolhi o termo aventuras logo no início do post, pois é geralmente como meus amigos se referem às minhas cicloviagens e outras pedaladas. E no fundo eu concordo, pois aventura não necessariamente quer dizer perigo, mas com certeza quer dizer emoção.

Quem pedala já deve ter ouvido uma série de perguntas da família, amigos, colegas de trabalho que não pedalam, todas girando em torno do mesmo tema: “por que você faz isso?” “Acordar as 5 da manhã do domingo para pedalar?” “Viajar de bicicleta, carregando peso?” “Pedalar no trânsito caótico da cidade?

O trânsito das cidades é perigoso“, “pegar estrada de bicicleta é perigoso“, “viajar de bicicleta sozinho é perigoso“… Ora meus queridos amigos, como já dizia Guimarães Rosa, viver é muito perigoso

Audax 200km em Rio das Ostras (2013)
Audax 200km em Rio das Ostras (2013)

Na verdade, não vou buscar aqui desmistificar o rótulo de louco, o qual não gosto e não concordo nem um pouco. A escolha pela bicicleta é uma escolha consciente, e muitos de nós já o fizemos, outros tantos ainda vão fazer. E que mais pessoas façam a cada dia. O que pensei na verdade foi em tentar responder, a partir do meu ponto de vista, uma pergunta não tão simples:

Por que se aventurar de bicicleta?

É claro que cada ciclista pode ter uma resposta diferente pra essa pergunta (e eu adoraria saber os motivos de vocês).

A minha resposta esteve sempre dentro de mim, mas fui percebê-la faz algumas semanas, durante uma parada para descanso em um pedal longo. Estava em uma cidade próxima a Belo Horizonte, em um bar, tomando uma coca-cola e comendo um salgado. No dia anterior, tinha preparado minhas ferramentas, lanches para a pedalada, separado a roupa, blusa de frio, conferido a bike. Tinha dormido bem cedinho e acordado as 5:30 da manhã. Já estava pedalando há algumas horas e completado pouco mais de 80km de pedal. Tinha programado pedalar cento e poucos quilômetros naquele dia.

Estava com muita fome, e pensei em como aquele salgado e aquele refrigerante estavam deliciosos. Um salgado comum, de boteco, e um refrigerante comum.

E fui me lembrando de outras grandes pedaladas e viagens, com amigos, quando parávamos cansados em algum lugar, sempre felizes por cada km percorrido. Pensei também nos bons papos, nos “dedos de prosa” que já havia tido com pessoas que encontrei nas pedaladas por aí. Pensei na chegada do Audax 200km que brevetei em março desse ano em Rio das Ostras, e como meu cansaço se transformava em uma satisfação 10 vezes maior. E pensei também na minha alegria quando conseguia ir para o trabalho de bicicleta, voltando pra casa rapidinho, sem esperar ônibus e curtindo a descida da Avenida Brasil, aqui em Belo Horizonte.

É isso. Tão simples e ao mesmo tempo tão pleno.

Em Sacramento - MG
Em Sacramento – MG (2010)

Pedalar transforma o comum em algo fantástico. O arroz com feijão do dia a dia fica mais gostoso. Ir para o trabalho fica mais gostoso. Chegar em casa, conversar com as pessoas, as coisas do cotidiano ganham mais sabor. Pedalar é algo que me lembra sempre que estou vivo, que sou o motor do meu corpo, o protagonista da minha história. Pode parecer estranho pra alguns, piegas para outros, mas quem se sente dessa maneira fazendo alguma coisa (pedalar, viajar, ouvir música, enfim…) entende o que estou dizendo.

Espero nunca perder esse sentimento, e espero que quem lê esse texto já tenha experimentado isso de alguma forma. Aos meus amigos de pedal, que em algum momento já dividiram comigo alguma aventura, e aos leitores do blog, com os quais divido aqui as minhas aventuras, um grande abraço e ótimas pedaladas!

Pelo litoral do Piauí, em 2009.
Pelo litoral do Piauí, em 2009.

“Viver é muito perigoso… Porque aprender a viver é que é o viver mesmo… Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa… O mais difí­cil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.”

Guimarães Rosa

4 COMENTÁRIOS

  1. Loucura. Para muitos pedalar nos mais diversos ambientes – muitas vezes perigosos – esta palavra caia muito bem. Para mim, Há Há Há Há… pura diversão… Sem palavras.

  2. Muito legal o texto, fui lendo como se eu mesmo tivesse escrito. Pra responder essa perg eu costumo dizer coisas como: sempre gostei de bicicleta, se eu sair de casa de mau humor qdo chego no trabalho já estou de bom humor, pq qdo vejo uma bicicleta bonita passando eu paro pra olhar, dentre outras respostas q eu sei q as pessoas nao entendem..mas enfim, tem muito a ver com essa sensação de conseguir chegar, que amplia absolutamente o prazer de estar em algum lugar, e pra mim tbm pq a viagem se torna parte do passeio e nao o momento da espera antes do passeio começar… Nao ter controle sobre tudo q vai acontecer (tipo aquelas viagens com itinerário rígido onde todo mundo fica estressado com cada atrasinho) me faz sentir mais viva…nossa…fui longe agora nas boas lembranças das pedaladas, to precisando fazer uma..rsrss….obrigada pelos ótimos textos!! Continue sempre escrevendo e inspirando outros bicicleteiros por ai…

  3. Muito obrigado Gabriela!
    Uma das minhas alegrias, pra além de pedalar, é encontrar pessoas que partilham comigo deste sentimento por aqui.
    Um abração procê e boas pedaladas!

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