As mulheres e as barreiras no uso urbano da bicicleta

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As mulheres e as barreiras no uso urbano da bicicleta
Foto: Aracaju Cycle Chic

Por Renata Aiala de Mello

Sobre a complexidade da questão

Sabemos que o tema “bicicleta” é muito amplo, complexo e, muitas vezes, polêmico. Uma prova disso é a riqueza de temáticas e a variedade de abordagens presentes nos diversos eventos que acontecem diariamente no Brasil e no mundo. Isso sem contar com as matérias veiculadas na mídia. Percebemos, assim, que as temáticas “bicicleta” e “mobilidade” urbana rendem muita conversa, muitas ideias, muitas experiências. A partir do tema “mobilidade urbana”, que para nós é muito extenso, propomos alguns recortes. Recortamos este tema e trataremos, mais especificamente, sobre As mulheres e as barreiras no uso urbano da bicicleta.

As mulheres e as barreiras no uso urbano da bicicleta
Foto: Aracaju Cycle Chic

Mesmo com todos estes recortes, ainda assim, é desafiador para nós abordar este tema. Aproveitamos que dia 8 de março foi o Dia Internacional da Mulher, achamos por bem trazer esta questão à tona, visto que vivemos na pele, nós mulheres, as consequências de uma sociedade machista e patriarcal. Evidentemente, o meio ciclístico não foge desta égide, já que é predominantemente constituído por homens.

Vejamos, abaixo, algumas reportagens que abordam o tema das barreiras enfrentadas pelas mulheres ciclistas em um ambiente urbano. Há reportagens em português, francês e inglês, de diversas partes do mundo, o que mostra a amplitude do problema.

Percebemos que a discussão sobre empoderamento feminino por meio da bicicleta é algo emergente e urgente.

Em uma pequena e rápida pesquisa na Internet, qualquer pessoa pode acessar diversos artigos que mostram a importância de se analisar, refletir, discutir e, sobretudo, buscar mudanças para melhorar a situação atual das mulheres que ocupam o espaço público e pedalam. Percebemos que há muito o que fazer. A estrada é longa, difícil de percorrer, sobretudo de bicicleta. Os obstáculos que nos são apresentados vão muito além do descaso do Estado, incluindo-se aí, evidentemente, as prefeituras que descuidam de nossas ruas e avenidas, mal sinalizadas e mal iluminadas e que não investem em ciclovias, chegando ao absurdo de fomentar ideologias contrárias à mobilidade urbana.

Poderosas Mulheres do Pedal. Jornal O TEMPO, 28/02/2015
Poderosas Mulheres do Pedal. Jornal O TEMPO, 28/02/2015
mulheres-e-as-barreiras-no-uso-da-bicicleta-02
In Gaza, Bicycles Are a Battleground for Women Who Dare to Ride. New York Times, 22/02/2016
mulheres-e-as-barreiras-no-uso-da-bicicleta-03
Pourquoi les femmes roulent-elles moins à vélo? Terraeco 26/09/2014

Algumas barreiras enfrentadas pelas mulheres no uso da bicicleta nas cidades brasileiras

Nós mulheres ciclistas sofremos vários tipos de violência nas ruas. Contabilizar estes dados seria, no entanto, muito difícil, visto que quase nunca denunciamos. Esse “nós”, entretanto, não representa um universo homogêneo de mulheres. Ao contrário, há diversos grupos e reações diferentes. Há mulheres, por exemplo, que relevam a existência desta violência e seguem seus caminhos, mas são conscientes das dificuldades e são politizadas. Há também mulheres que enfrentam, lutam, discutem e debatem tais agressões e não se calam. Rebatem e denunciam, gritam para todo mundo ouvir o bulliyng que sofrem. E há também aquelas que não relevam as agressões mas as aceitam, no sentido de acostumar-se com essa violência e com as imposições do universo masculino institucionalizado e chegam até mesmo a romantizar certas agressões como as cantadas de rua, por exemplo. Enfim, passamos por todo tipo de barreiras que dificultam ou até mesmo impedem o crescimento do número de mulheres pedalando.

Fazemos aqui um parênteses para lembrar que grande parte do alunado do Bike Anjo é formado por mulheres. A maioria delas adulta e com uma história de vida que se repete, se assemelha: não aprenderam a andar de bicicleta na infância e na juventude, pois os pais não deixaram, estes, alegando que bicicleta não era/é coisa de mulher.

Vimos que as barreiras aqui citadas são dos mais variados tipos. Uma delas se inscreve no fato de vivermos em cidades planejadas prioritariamente, quase exclusivamente, para os carros. O ciclista no universo carrocrata dificilmente tem vez e voz. Evidentemente esta barreira não é exclusiva das mulheres, mas de todos. Precisamos, muitas vezes, nos deslocar em avenidas com a velocidade máxima permitida de 70 km/h! Isto já é uma violência. Uma violência do poder público contra nós ciclistas, um desrespeito para com o cidadão. Pesquisas mostram que o número de acidentes envolvendo motoristas, ciclistas e pedestres diminui consideravelmente ao reduzir a velocidade máxima permitida nessas vias. Além disso, o número de vítimas fatais também cai drasticamente. Vemos, a seguir, um gráfico mostrando as chances de vida de um pedestre atropelado por um carro e as variadas velocidades:

risco de mortes de pedestres por atropelamento de automóveis

Quando nomeamos “motoristas”, estamos nos referindo aos que conduzem carros particulares, taxis, ônibus e caminhões. Difícil é saber quais são os mais agressivos e irresponsáveis. Fica a dúvida se esta agressividade e esta irresponsabilidade são frutos da ignorância ou da maldade alimentada pela ideologia carrocrata que os levam a pensar que eles têm mais direito enquanto cidadãos e que são mais importantes que os ciclistas. De qualquer maneira, a ignorância é absurda e o desrespeito (consciente ou não) é um absurdo maior ainda.

Não custa lembrar, o Artigo. 29 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) diz que os veículos maiores devem proteger e dar preferência aos menores; e os motorizados são responsáveis pelos não motorizados, ou seja, pelos agentes ativos – pedestres, patinadores, skatistas e ciclistas. Entretanto, o que vemos no nosso cotidiano são motoristas que não mudam de faixa para nos ultrapassar, desrespeitando, com isto, a lei de 1,5m de distância – no CTB: Art. 201. Também são raros os motoristas que nos cedem passagem ou esperam passarmos pelo ponto de ônibus, por exemplo.

Agressões não menos importantes acontecem cotidianamente quando nós mulheres ciclistas sofremos assédios morais, sexuais e de gênero. Somos constantemente inibidas, diminuídas, desrespeitadas e agredidas não só pelo fato de sermos mulheres, mas também pelo fato de sermos ciclistas.

Muitos homens, talvez por e para se sentirem mais machos e másculos, se julgam no direito de nos molestar enquanto pedalamos. Desse modo, percebemos que as barreiras enfrentadas por uma ciclista vão além do medo de ser atropelada e assaltada, preocupações estas comuns aos homens ciclistas.

Todo este universo próprio da mulher ciclista que acabamos de descrever cria e sustenta o imaginário social de que andar de bicicleta é perigoso, sobretudo para as mulheres – que precisariam e deveriam ser protegidas pelo pai, marido, irmão e amigo, ou seja, homem protegendo a mulher de outro homem, num círculo vicioso tendo a mulher como “objeto” central de interesses. Isto explica o menor número de mulheres ciclistas. Quantas vezes não ouvimos que estamos nos arriscamos muito ao pedalar nas cidades? Quantas vezes somos desencorajadas a pedalar porque corremos riscos ao fazermos isto sozinhas?

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