Da caótica Belém até a pacata Salvaterra (PA) – Minha breve iniciação ao cicloturismo

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De Belém a Salvaterra (PA).
Felipe Pamplona pedalou de Belém a Salvaterra (PA), e enviou a sua história.

Por Felipe Pamplona

Havia bastante tempo que gostaria de praticar o cicloturismo, mas faltavam-me equipamentos, encorajamento e tempo. Montei uma bicicleta, ganhei experiencia em viagens e mecânica; e após vários relatos de cicloturistas, ganhei confiança e vontade. Não tardou para que me visse planejando minha primeira cicloviagem, porém, devido a falta de tempo, decidi realizar uma mini viagem.

Todo homem deve conhecer suas raízes, claro que já entrando em uma questão filosófica, é difícil definir o que são raízes; as minhas residem boa parte na criação dada pelos meus avós, de origem marajoara, e é para lá que decidi realizar minha primeira cicloviagem de teste: ilha do Marajó, terra de búfalos, abacaxi, carimbó e belezas pouco exploradas.

Uma grande dúvida de todo iniciante é o que levar para uma viagem. Experiências em pedais mais longos e as idas e vindas constantes ao trabalho utilizando uma bicicleta me ajudaram a decidir sobre o que precisaria. Para quem não faz ideia, a dica que passo é ir ao trabalho ou para a casa de algum parente passar um ou mais dias somente de bicicleta.

O que decidi levar então:

Mochila simples
Mochila de hidratação
Sandálias
kit de remendo para pneus
Missing link para corrente 10V
Lubrificante para transmissão, do tipo úmido
Bomba de ar
Câmara reserva tamanho 650b
Chave canivete de ferramentas
Sabonete líquido
Desodorante
Toalha (a menor que tenho)
Duas cuecas
Bermuda
Camiseta
Camisa polo (apenas para reserva, acabei nem utilizando)
Carregador de baterias (celular e câmera)
Câmera nex3 e sua bolsa de transporte
Kobo (para quem não sabe é um leitor de e-book)
Celular
Escova e creme dental
Chave de corrente
Sais reidratantes para misturar com água
Documentos de identificação
Roupa de ciclismo (bermuda, manguito, luvas, tênis, meia, capacete e camisa)
Cabos elásticos
Fone de ouvido

De Belém a Salvaterra (PA) – A viagem

Infelizmente devido ao pouco tempo disponível, pude viajar somente durante dois dias; precisei faltar trabalho e desta vez estava sem ninguém para me acompanhar, ou seja, uma viajem solo.
O nível de dificuldade do percurso, diria “mamão com açúcar”, muito bom para quem está pretendendo iniciar no ciclismo ou cicloturismo; o terreno é quase sempre plano, os únicos empecilhos são o sol e o vento muito fortes.

Dia 03.10.15

Sai de casa por volta das 5:30 da manhã; minha intenção seria pegar a balsa para realizar a travessia do rio até chegar ao porto do camará, já na ilha do Marajó e de lá seguir pedalando até Salvaterra. Cheguei atrasado poucos minutos e minha embarcação já havia zarpado, mas o responsável pelo embarque me deixou partir na próxima balsa, muita sorte!
A travessia do rio é simples e calma, dura em torno de 3:00; as balsas não contam com locais específicos para motos ou bicicletas, o jeito é improvisar e prender bem a magrela e os pertences; tirar um bom cochilo é uma possibilidade também.

Depois de chegar ao porto, existem muitas vans, ônibus e motos que saem para diversos locais do Marajó, para quem vai a pé, fica a dica de pechinchar bastante para pegar um bom preço. A estrada do porto até joanes e/ou Salvaterra é um verdadeiro tapete, algo que consideraria até milagroso para a região norte do país. O que mais atrapalha é o vento, tão forte que derruba a bicicleta mesmo com o descanso, tão poderoso que nos obriga a pedalar mais “pesado”.

Pelo caminho, não se vê muita coisa além de pequenas casas, vilarejos e plantações de abacaxi, aliás, este fruto tem se tornado a base da economia da região e é considerado o mais doce do Brasil. Se o paraense tivesse uma vocação melhor para o turismo ou engenharia, teriam feito uma estrada a beira-mar…mas…fizeram-na “cortando o mato”; espero que ao menos tenha sido para preservar o meio ambiente da região.

Ao final do percurso, o GPS do celular marcou 47,3Km, pois ao invés de pegar sempre o asfalto, acabei percorrendo uma trilha pelo meio do mato, uma vez que dispunha de um GPS pré-programado com uma trilha realizada por grupos de ciclismo; no meio do caminho, levei uma queda feia e acabei batendo forte a perna e o braço esquerdo, mas, como qualquer tombo meu, só sentiria as dores depois de “esfriar o sangue”.

Após o percurso, fui até a pousada Boto, onde havia reservado um quarto. Dentro da cidade existem inúmeras pousadas, algumas muito mais baratas e outras até melhores em termos de infra estrutura, com bar, restaurante, casa de massagem, piscina, wi-fi, shows e TV a cabo; mas para viajar de verdade é necessário sair da rotina, para que ir até salvaterra para depois ficar imerso em uma piscina ou ficar conectado pelo wi-fi?! Além do mais, o preço da diária já me custaria o que gastei durante a viajem inteira. A pousada é única, pois insere o hospede na cultura marajoara, cada quarto possui decorações inspiradas em lendas amazônicas: Iara, curupira, matinta perera, mapinguari…Outra coisa bem legal do lugar é a decoração rústica, minha preferida. Nota-se também um certo grau de sustentabilidade, pois é possível notar muitas esculturas feitas com galhos secos e canteiros feitos a partir de garrafas usadas.

Depois de 50 quilômetros em baixo de muito sol e enfrentando muito vento, logicamente que é preciso repor nutrientes e calorias gastas. Fui até a orla da praia munido com uma mega fome, e depois percorre-la quase por inteira, desisti de encontrar um lugar aberto no qual pudesse comer bem, gastando pouco e ainda pagando no cartão de débito, aliás, as propagandas de cartões de crédito/débito são muio distantes da realidade, pois basta sair das regiões metropolitanas para que o cartão não sirva de nada, pois pouquíssimos estabelecimentos tem a maquina de passar cartões.

Felizmente tinha uns trocados no bolso e pude experimentar o prato mais comum da ilha: filé de búfalo com queijo do marajó.

Almocei quase cinco da tarde em um casebre chamado solar do Marajó, curiosamente a decoração do ambiente me fez voltar alguns anos no passado e passei a me sentir em casa; estava uma delícia, mas a fome era tanta que acho que qualquer coisa seria bem vinda; o local conta ainda com uma brisa forte e refrescante, além de uma bela paisagem.
Depois de forrar o estômago, chega a hora de treinar alguns “cliques” com minha câmera, aproveitar a brisa, andar pela areia, apreciar a paisagem e refletir um pouco sobre a vida.

De Belém a Salvaterra (PA).
De Belém a Salvaterra (PA). Foto: acervo pessoal Felipe Pamplona

Dia 04.10.15

Antes de dormir no dia anterior, já havia sentido a perna esquerda muito dolorida devido a uma queda forte que peguei, mas esse tipo de dor pela manhã é o que há para estragar alguns planos. Gostaria de ter realizado uma travessia para a cidade vizinha, Soure, mas a dor intensa me fez “encurtar” os planos e acabei passando a manhã a pedalar pela praia e vizinhança da pousada.

Depois de comer até passar mal durante o café da manhã servido pela pousada (e curtir uma baita dor na perna esquerda), é chegada a hora de partir. Saindo somente pelo asfalto são 27 km de Salvaterra até o porto de onde saem as balsas, não daria conta de pedalar, logo, fui em um ponto de rodoviários pedir carona. Chegando ao porto, apenas repeti o ritual do dia anterior, achar um canto tranquilo, prender tudo no cadeado e tirar mais um cochilo

Ao voltar já de noite para Belém, fui recepcionado por duas amigas, ainda bem, pois estava com medo da violência local; me surpreendi quando a bicicleta coube dentro de um fiesta modelo antigo. Agradeço muitos as duas pelo apoio, provavelmente teria pedalado bem mais devagar até minha casa.

Custos

Bastante gente acha que uma viajem deste tipo tende a ser muito dispendiosa em vários sentidos, claro que definir “caro” ou “barato” depende do bolso de cada um; mas para desmistificar um pouco este conceito, aqui vai o destino do meu suado “dinheirinho” durante este passeio (lembrando que os preços sofrem varição de acordo com a época do ano):

Hospedagem na pousada boto: Quarto solteiro mais uma bicicleta R$ 80,00 (50% de depósito durante a reserva e 50% quando se chegar lá; incluso café da manhã super reforçado).
Almoço no solar do marajó: A porção para uma pessoa varia entre R$ 10,00 e R$ 20,00, dependendo do prato, o famoso filé da ilha custou-me R$ 15,00.
Balsa para travessia: Absurdos R$ 30,00 para um passageiro portando uma bicicleta, ida e volta R$ 60,00 “dilmas”.
Água pelo caminho: R$ 1,50 a garrafa de 500 ml, comprei quatro, totalizando R$ 6,00.
Van de volta para o porto: R$ 20,00…facada…também
P.F de almoço no porto antes do embarque: R$ 10,00 o prato e R$ 2,00 o abacaxi para sobremesa cortado e gelado
Total: R$ 193,00

Apenas a título de curiosidade a pousada mais chique da região estava R$ 140,00 a diária mais em conta, porém só havia um quarto casal disponível a R$ 200,00; o almoço sai entre R$ 30,00 e R$50,00. A travessia de um carro de passeio pequeno custaria R$ 90,00…ou seja R$ 180,00 “dilmas”, ida e volta.
Caso tivesse realizado o passeio como um turista “normal”, R$ 200,00 de hospedagem; R$ 180,00 de travessia; R$ 60,00 para dois dias de refeições, totalizaria R$ 440,00 e provavelmente nem conheceria Salvaterra de verdade, talvez ficasse trancado nas dependências do hotel. Se quiser ver outras opções de hospedagem em Salvaterra e região basta clicar aqui.

O futuro…?

Bem o que esperar não sei, pois não sou vidente, mas os planos são adquirir um par de alforges ou mochila para cicloturismo (da marca ararauna, solidsports ou saikoski); um malabike para voos mais longínquos e uma bolsa de guidão para câmera DSLR. Quanto ao destino, o que não falta neste Brasil são locais belos e razoavelmente acessíveis como estrada real em Minas Gerais; circuitos do vale europeu e verde&mar em Santa catarina; ilha do mel no Paraná; regiões ao sul de São Paulo…e por ai vai (quer saber mais? Relatos de viagem de cicloturistas).

No mais, deixo uma frase de um homem que foi de extrema influência para a humanidade, e não estou me referindo à misticismos; andava muito de bicicleta e mudou o mundo quando imaginou o que aconteceria caso ela acelerasse até atingir a velocidade da luz.

“Viver é como andar de bicicleta: É preciso estar em constante movimento para manter o equilíbrio”

(Albert Einstein)

Gostou? Mais informações no meu blog: http://diasdesolitude.blogspot.com.br/

Foto slide do passeio: https://www.flickr.com/photos/121119111@N02/sets/72157659550961685/show

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