Minha primeira cicloviagem: Vila Velha (ES) ao Rio de Janeiro (RJ)

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Lagoa Maria da Rosa, em São João da Barra (RJ). Foto: Alfred Carstens

Por Alfred Carstens

Em um texto anterior contei como foi meu início com a bicicleta e as primeiras pedaladas. Depois de muito treino, finalmente parti para minha primeira viagem de cicloturismo, em 2013, que conto agora.

A Bicicleta em 2013

Com a intenção de melhorar o desempenho o pedal com “clip” foi instalado na bicicleta que provou ser muito útil. A aquisição do GPS Garmin Edge 800 foi fundamental. Lendo reportagens em revistas especializadas, a vontade de fazer uma cicloviagem foi cada fez mais forte. Avaliando cada uma e fazendo simulações em “softwares” da Garmin, outras utilizando o Google Earth, a vontade aumentava cada vez mais. Várias foram as opções: Vale Europeu em Santa Catarina, Estrada Real, Caminho da Fé entre outros.
Mas o que estava acontecendo era só planejando e sonhando, então em setembro de 2013 tomei a decisão: vou fazer uma cicloviagem para ver, sentir, viver a experiência. Precisava viver as situações. Amir Klink disse uma vez após sua viagem ao redor do mundo circunavegando o Continente Antártico: “Você pode estudar e aprender que a Terra é redonda, mas quando você vive a situação navegando sempre para o Leste e chegar ao mesmo lugar realmente você apreendeu.”
Por que Rio de Janeiro? Primeiro, o ponto de partida seria da minha casa, sem necessidade de deslocamentos. Segundo, conhecer esta parte do litoral do Brasil que só via quando em viagem aérea. O delta do Rio Paraíba do Sul sempre me atraiu. As inúmeras lagoas também. Esta era a oportunidade.

Planejando a Cicloviagem

Destino decidido, precisava planejar. Varias questões surgiram e para cada uma delas eu precisava encontrar a solução. O primeiro passo foi determinar as fases do planejamento, então dividi os itens em subsistemas:
1 – Subsistema Bicicleta
2 – Subsistema Navegação
3 – Subsistema Rotas
4 – Subsistema Alimentação
5 – Subsistema Vestuário
6 – Subsistema Higiene e Proteção

Definidos os itens de cada subsistema – os quais poderiam sempre ser reavaliados e corrigidos se necessário – parti para qual seria a quilometragem máxima por dia possível de ser realizada. Novamente a minha planilha de dados foi importante. Com estes dados foi possível definir a quilometragem diária a qual estaria disposto a fazer, bem como a média de velocidade conseguida nestes pedais. Defini então que a quilometragem diária seria de 100 km e com uma velocidade média de 15 km/h.

Com o auxilio do MapSource (um software da Garmin) e o mapa para GPS da TrackSource, passei a fazer as rotas. O objetivo era evitar a BR101 e a RJ106 (Amaral Peixoto) onde fosse possível. Definida a rota principal preferencialmente pelo litoral até Niterói, passei a seccioná-la de forma que cada trecho tivesse os 100 km definidos no objetivo.
Nesta definição levei em conta as localidades onde ficaria para passar a noite e descansar uma vez que acampar estava fora de cogitação. Seria muito cansativo.
Os trechos diários ficaram assim definidos:

Planejamento

Dia da semana Dom Seg Ter Qua Qui Sex Sab
Dia do Mês 03/nov 04/nov 05/nov 06/nov 07/nov 08/nov 09/nov
Dia de pedal
Local saída Vila Velha Marataízes São João da Barra Quissamã Rio das Ostras Arraial do Cabo Saquarema
Hora de saída 06:00 06:30 06:30 06:30 06:30 06:30 06:30
Distância 112km 75km 125km 83km 62km 65km 83km
Local chegada Marataízes São João da Barra Quissamã Rio das Ostras Arraial do Cabo Saquarema Niterói/Rio de Janeiro
Velocidade média 15km/h 15km/h 15km/h 15km/h 15km/h 15km/h 15km/h
Tempo de Pedal 7h28min 5hs 8h20min 5h32min 4h08min 4h20min 5h32min
Tempo de Parada 2hs 2hs 2hs 2hs 2hs 2hs 2hs
Distância Total 112km 187km 312km 395km 457km 522km 605km

 

Verificando a previsão do tempo nestas datas havia indicação de chuvas nos dias 6 e 7 de novembro. De qualquer forma, a chuva deveria ser prevista em qualquer trecho da rota. Cada trecho foi estudado no Google Earth para a visualização do terreno, uma vez que algumas rotas foram definidas em locais não comuns a utilização de carro de passeio.
Definidas as rotas e as cidades de parada, a questão era o que levar na cicloviagem. Não queria utilizar alforjes, então optei pelo TrunkBag da Topeak, com capacidade 20 litros.
Fiz uma lista do necessário e simulei a bagagem. Percebi que daria certo e tudo que precisava foi acomodado na TrunkBag. Apesar de ter as rotas definidas e instaladas no GPS, decidi por imprimir alguns mapas para localização em caso de falha do GPS. Os mapas foram impressos, mas surge a questão de como transportá-los. A solução encontrada foi um tubo de PVC de 40 mm preso sob o “rack.” Estariam protegidos da chuva e sem serem amassados.
Como uma coisa puxa outra, resolvi instalar mais um tubo com os equipamentos de reparo para pneu e algumas abraçadeiras, incluindo um isqueiro para emergências.

Alguns acessórios montados na bicicleta

1 – Trunk Bag
2 – Tubos de PVC um com mapas e outro com material de reparo de pneu
3 – Localizador GPS GTU10 Garmin e a caixa de ferramentas da Topeak
4 – GPS Garmin Edge 800
5 – Bomba Topeak

A cicloviagem

1º dia – de Vila Velha a Marataízes

Domingo 3 de novembro, sai às 06h30min horas acionei o GPS e segui pela ciclovia da Praia da Costa e em seguida a Rodosol (ES-60) este trecho já havia feito algumas vezes até Meaipe, portanto não havia surpresas. Quando havia passado o pedágio da Rodosol, um ciclista em uma bicicleta de estrada emparelhou comigo e viu a minha bicicleta. Perguntou aonde eu ia e ficamos alguns quilômetros pedalando juntos, foi uma conversa boa.
Parei em Santa Monica já com 38 km pedalados para uma parada de reabastecimento, uma olhada geral se tudo estava correto, bem fisicamente e após o reabastecimento segui para Guarapari e logo em seguida Meaipe, onde fiz uma boa parada com direito a água de coco e enviar mensagem para a Jô que ficou grudada no computador acompanhando o deslocamento através do localizador por GPS.
Tudo em ordem saindo de Meaípe até o trevo. Até este ponto como já havia feito algumas vezes estava mais seguro. Contornado o trevo e vendo as placas de sinalização pensei: “ate agora era trecho conhecido e daqui em diante tudo será novidade, razão para redobrar os cuidados”.
Pois bastaram alguns metros e o fantástico acostamento da Rodosol desapareceu. Não tinha outra solução senão pedalar pela pista. Sem nenhum problema, todos os carros e ônibus sempre davam espaço sem que me colocassem situação de risco, mas devemos considerar o baixo movimento de veículos nesta rodovia.
Passando pela Lagoa Maimbá algumas fotos e próximo a Samarco uma parada para mais fotos, uma ultima olhada nas paisagens conhecidas, e segui em frente em direção a Anchieta passando pela ponte sobre o Rio Iconha. A rota definida no GPS foi correta sem nenhum contratempo. Completei 113 km com uma velocidade média de 18,5 km/h. Um pouco acima do planejado, item que eu iria controlar melhor nos dias seguintes.

Rio Iconha, em Piúma (ES). Foto: Alfred Carstens
Rio Iconha, em Piúma (ES). Foto: Alfred Carstens

2º dia – de Marataízes a São João da Barra

No dia seguinte rumo a São João da Barra. Às 6 horas da manhã estava saindo; a idéia inicial era seguir pela avenida litorânea, mas como na pousada não tinha café da manhã, segui pela avenida central para encontrar uma padaria. Após um bom café segui em direção a São João da Barra. Este dia prometia, pois teria que encontrar um meio do cruzar o Rio Paraíba do Sul, caso não fosse possível teria que pedalar até Campos do Goytacazes e no dia seguinte continuar o pedal. A saída de Marataízes é cheia de falésias e plantações de abacaxi. Visual fantástico. Sai da ES 60 e segui pela beira mar. Após 24 km já fora do asfalto passando pela praia Central, Marobá, até a Lagoa do Siri, quando voltei para a ES60. Neste trecho não havia ninguém só o ruído dos pneus no chão o barulho das ondas na arrebentação. A sensação é boa apesar de você ficar horas sem falar nada só observando a paisagem, aliás, de tirar o fôlego. O contato direto com o vento, a natureza e muito bom, reconfortante e você só consegue pensar no momento. Assim foi grande parte da cicloviagem.

Seguindo até a Praia das Neves, depois de volta a ES60 para a passagem sobre Rio Itabapoana. Cruzando a divisa uma euforia tomou conta. Consegui. Parte da cicloviagem estava concluída. Quase um marco. Pela primeira vez entrei no estado do Rio de Janeiro pedalando. Agora falta pouco. Cruzei a divisa e fui em direção a Barra do Itabapoana pela Sb055, um pequeno vilarejo muito simpático. Pouco movimento devido à baixa temporada. Uma parada em uma pequena lanchonete em Barra do Itabapoana, para reabastecer de água e logo uma garrafa de 1,5 litros. A dona da lanchonete comentou: “Você está com sede”. “Sim” , respondi, “estou vindo de Marataízes no Espírito Santo”. Conversamos um pouco sobre o lugar e ela me passou algumas informações sobre a travessia do Rio Paraíba do Sul. Fiquei mais tranqüilo e provavelmente a opção de ir até Campos não seria necessária. Seguindo pela RJ196 em direção a Gargaú, onde pretendia encontrar um meio de atravessar o Rio Paraíba do Sul. Caso não fosse possível teria que pedalar até Campos para encontra uma ponte. Mas chegando a Gargaú encontrei um pescador que faz a travessia. Visual fantástico e quase 40 minutos para cruzar o rio. Em Gargaú há uma fazenda de geração eólica contei 16 turbinas eólicas, são enormes fiquei algum tempo observando o girar das pás do rotor.

Lagoa Maria da Rosa, em São João da Barra (RJ). Foto: Alfred Carstens
Lagoa Maria da Rosa, em São João da Barra (RJ). Foto: Alfred Carstens

Em São João da Barra parei em frente à famosa fabrica do Conhaque de Alcatrão de São João da Barra. Pedalei pela cidade e parei na praça em frente à Prefeitura. Um funcionário da prefeitura veio em minha direção e perguntou se eu estava vindo de longe. A princípio ele não acreditou, conversamos um pouco sobre a viagem e indicou ser melhor ficar em Atafona, pois nesta época do ano é mais tranqüilo e as pousadas são mais baratas. Deu algumas dicas sobre o trajeto e lá fui em direção a Atafona para passar a noite. Gostei muito, tudo arrumado na cidade, uma boa pousada e um bom restaurante. Algumas voltas a pé pela pracinha e após o jantar uma boa noite de sono. Antes, uma rápida inspeção na bicicleta.
Foram mais 99,2 km neste ponto da viagem tinha pedalado 212 km faltavam ainda 427 km.

3º dia – de São João da Barra a Quissamã

No dia seguinte às 6 horas da manhã um café completo na pousada e em seguida parti para o pedal em direção a Quissamã. Este seria o trecho mais longo, com 126 km em uma região sem praticamente nada. Por horas eu ficava sem ver ninguém, uma casa, um carro, nada. Só céu e a paisagem de restinga com muitas lagoas de visual fantástico. Saindo de Atafona passando por Grussaí, tudo deserto, nada aberto, casas fechadas sem sinal de movimento.
De Grussaí segui pela BR 356 até encontrar a Estrada do Galinheiro, passando pelas terras da LLX, uma área muito grande. Pedalei por uns 18 km dentro das terras da LLX. Enfim continuando até encontrar a RJ 240 rumo ao Porto de Açu.
Na entrada para o Porto de Açu segui em frente em direção ao litoral por uma estrada municipal de terra. O visual mais bonito foi passando pela Lagoa Maria Rosa próximo ao farol de São Tomé. Água clara e muito limpa. Muita vegetação de restinga. Perto do mar segui em direção a Farol de São Tomé. Cruzei o Canal São Bento, depois o Canal das Flechas até Barra do Furado.
Agora pela RJ 196 em direção a Quissamã. Cheguei a Quissamã já no fim da tarde, parei em um bar com mesas na calçada. Alguns litros de água e segui para a pousada na Rua do Correio Imperial.
Foram mais 123 km e agora tinha um total de 335 km pedalados. Sem dúvida uma vitória. Estava bem fisicamente sem dores ou algum mal estar, somente cansado – o que com uma boa noite de sono seria resolvido.

4º dia – de Quissamã a Rio das Ostras

No dia seguinte saindo de Quissamã às 7 horas. Um pouco mais tarde do planejado, mas não podia deixar de saborear o café da manhã que os donos da pousada prepararam especialmente pra mim. Estava muito bem fisicamente, muito disposto, sem contar que estava muito orgulhoso do realizado. A preocupação inicial de como seria pedalar por dias seguidos desapareceu, porém ainda tinha 430 km pela frente e tudo podia mudar. Portanto, a cautela em seguir o planejado deveria permanecer, e com uma avaliação com mais freqüência da condição física.
A chuva que estava se anunciando desde o fim da tarde do dia anterior, chegou. Até Rio das Ostras foi alternando entre chuva e céu nublado. A temperatura caiu para uns 16 graus Celsius, claro que a sensação térmica, pois a indicação do GPS esta sujeito às condições diferentes das da temperatura ambiente. Pensei em colocar o casaco cortavento, mais desisti. Estava chovendo e tinha colocado ele no fundo da bolsa. Se fosse tirar iria molhar tudo, o que não seria uma boa ideia. Agora era encarar a temperatura e a chuva. “Enquanto em movimento não será problema”, pensei. “Quando chegar ao destino um bom banho e roupas secas resolverão”.
Chegando a Macaé, no trevo de Cabiúnas, a situação ficou mais crítica devido ao transito intenso de caminhões. E ao que parece em Macaé não gostam muito de ciclistas. Até cruzar a cidade, próximo ao Parque de Tubos da Petrobras, o trânsito foi motivo de muita atenção. Logo após Cabiúnas encontrei um ciclista local e fizemos um pequeno comboio até a entrada da ponte de Macaé, quando ele tomou outro rumo e eu segui para o centro de Macaé. Cruzei a cidade e segui por uma ciclovia paralela a linha do trem que logo acabou e voltei para a pista, porém mais tranqüilo. Em seguida pedalei pela via secundária da Rodovia Amaral Peixoto até trevo de quem vem da BR 101 e uma ciclovia surgiu. Cheguei a Rio das Ostras por volta das três horas da tarde e enquanto decidia em qual pousada iria ficar a chuva chegou forte. Esperei a chuva diminuir, pois com o transito doido de Rio das Ostras não seria uma boa ideia pedalar.
Tinha parado em frente a um café, Café Tabaco. Enquanto esperava a chuva passar, um café iria cair bem. Estava molhado e devido à chuva e o vento estava sentindo um pouco de frio. O dono do café começou a conversar perguntando de onde eu vinha e me indicou uma pousada praticamente ao lado do estabelecimento. Uma mão na roda. Pousada simples mais muito boa, a dona muito gentil. Arrumou logo um quarto e após um bom banho e com roupas seca estava novo em folha.
Uma verificação de rotina na bicicleta, sequei a corrente e apliquei uma leva camada de lubrificante. No mais, tudo em perfeita ordem. Até Rio das Ostras já havia percorrido 416 km. Mais 200 km e estaria no destino. A chuva só parou a noite. O tempo ainda nublado. Sai para o jantar e direto para a cama. Estava cansado mais muito feliz, sem dores, muito bem fisicamente.

5º dia – de Rio das Ostras a Arraial do Cabo

No dia seguinte após o café na pousada a algumas fotos com o pessoal da pousada e outros hospedes que souberam o que eu estava fazendo. Um chegou a dizer que só tinha visto isto em filme, e que era a primeira vez que conhecia uma pessoa que estava em uma viagem de bicicleta. Tirou varias fotos minhas e da bicicleta. O tempo estava fechado a não havia chovido durante a noite. As ruas estavam secas. Um bom sinal que não durou sequer alguns minutos, mal sai da pousada e a chuva voltou e não parou mais. A minha ideia era passar em Búzios. Cheguei até a entrada, mas a chuva não parava, então resolvo seguir para Arraial do Cabo. Segui para Cabo Frio debaixo de chuva com um transito muito intenso e caótico com retenções, semáforos sem funcionar, um caos. Descobri outro local que não gosta de ciclistas e foi difícil. Algumas fechadas, principalmente da empresa de ônibus local. Enviei um correio apara esta empresa, mas claro que não responderam. Em Arraial do Cabo a chuva continuou a tarde inteira. Um bom banho e roupas secas, agora com um problema: a sapatilha estava encharcada, e isto seria problema para o dia seguinte. Almocei, passei em um supermercado e renovei o estoque de barrinhas de cereais, uns biscoitos e papel higiênico que utilizei para tentar secar a sapatilha. Digo que foi um sucesso. Ficou praticamente seca e pela manhã estava novinha e sequinha.
Uma nova inspeção na bicicleta e novamente sequei a corrente e a lubrifiquei novamente. Tudo em ordem fiz um resumo do pedal e já tinha pedalado 488 km um feito, fiquei muito feliz com a conquista e fui dormir. Estava chegando ao meu destino.

6º dia – de Arraial do Cabo a Saquarema

No dia seguinte a chuva parou e estava nublado, mas o sol começava a aparecer. Saindo de Arraial em direção a Saquarema, o tempo foi melhorando. Passei pelas ruínas da Alcalis, pelas salinas abandonadas, ainda com um ou outro trabalhador isolado retirando um pouco de sal delas. Pedalando pela RJ 102 cheguei às salinas de Praia Seca. Parei em um bar, peguei água e abasteci a mochila de hidratação. Enquanto isso, o dono começou a conversar perguntando de onde eu vinha e para onde eu estava indo. Falou que a única maneira de chegar a Saquarema era ir por Bacaxá e que não havia outro caminho. Paguei a conta e segui caminho, parando logo em seguida em uma sombra para avaliar a informação. Havia estudado o trajeto e feito rotas no mapa, as transferido para o GPS e em todas elas não houve nenhuma alteração com que eu havia planejado. Esta de ir até Bacaxá estava fora dos planos. Consultei mais uma vez a rota no GPS. Parecia estar correta. Não adianta ficar questionado, se tiver que ir a Bacaxá, vou. Olhei o mapa no GPS e fiz uma idéia na nova rota. Segui em frente pela RJ102. Alguns quilômetros à frente o GPS indicando que eu deveria virar à esquerda. No ponto indicado entrei a esquerda uma pequena subida e uma Salina enorme pela frente com um caminho estreito entre ela. Era a Salina Almira. Parei, avaliei a situação novamente, consultei a rota no GPS e após alguns minutos resolvi seguir o planejado. Já tinha chegado ate aqui, há indicação de estrada “draft” como consta no mapa. Já tinha passado por outras estradas com esta classificação e não tive problemas. Segui, desci pela estradinha e deparei com uma corrente com cadeado impedindo a passagem.
Este tipo de informação não consta em mapas, ai pensei: “o cara estava certo”. Olhei em todas as direções ninguém por perto para perguntar. Observei que por dentro de um dos galpões de sal dava para passar, então segui em frente e logo vi dois homens retirando sal da salina. Parei acenei, mas sequer ouviram, e resolvi seguir. A estradinha era boa, entre as lagoas Vermelha e Pitanguinha. Passei por uns troncos de arvore que formavam uma espécie de ponte e seguindo a rota deparei com um banco de arreia sem condições de pedalar. Parei, olhei o mapa e Saquarema estava a uns 20 km. Desci e andei empurrando a bicicleta por uns 4 km, quando foi possível retomar o pedal. Algumas construções, sem ninguém. Segui em frente pela rota anteriormente definida e finalmente Saquarema.
Vitoria, mais uma conquista – 553 km. Agora mais 86 km e um dia chegaria ao destino. Encontrei uma pousada e após o banho vejo o pneu dianteiro parcialmente vazio. Furou. Como estava na pousada deixei o conserto para depois do almoço e do merecido descanso. Um minúsculo furo na câmara – deve ter sido quando passei pela vegetação de restinga antes de chegar a Saquarema. Troquei a câmara e fui para o jantar.

7º dia – de Saquarema ao Rio de Janeiro

No dia seguinte, o último da cicloviagem, acordei mais tarde e saí por volta das 8 horas em direção ao Rio de Janeiro. Dia de sol e muito quente. A sensação térmica era de 39° Celsius. Diminui a velocidade um pouco. Afinal, estava quase concluindo o trajeto. Seguindo pela RJ 102 passando pelas Lagoas de Saquarema, Jaconé, Maricá, em seguida a Estrada Francisca Cruz Nunes para subir a serra da Tiririca. Subir não, escalar. Sem condições de subir pedalando parei tirei as sapatilhas, calcei sandálias e caminhei em direção ao topo.

Agora alguns metros e estava concluída a minha primeira cicloviagem. A emoção tomou conta, foi fantástico, indescritível sensação de felicidade e de realização. Nunca tinha me sentido assim. Lembranças que com certeza ficarão para sempre.

Coloquei novamente as sapatilhas e desci até Itaipu seguindo para Niterói em direção a Estação das Barcas. Cruzei a Baia de Guanabara na Barca Martin Afonso chegando a Praça XV em Rio de Janeiro. Agora alguns metros e estava concluída a minha primeira cicloviagem. A emoção tomou conta, foi fantástico, indescritível sensação de felicidade e de realização. Nunca tinha me sentido assim. Lembranças que com certeza ficarão para sempre. Na frente do hotel a Jô esperava de máquina fotográfica em punho para registrar a chegada. Os funcionários do hotel bateram palmas, outros hóspedes ficaram olhando meio sem entender o que estava acontecendo.

Em Meaípe. Foto: acervo pessoal Alfred Cartens
Em Meaípe. Foto: acervo pessoal Alfred Cartens

Conclusão

Foi fantástico, uma emoção difícil de traduzir em palavras. Agora sei o que os ciclistas aventureiros sentem e porque fazem isto. Deve estar no DNA do ser humano. O tempo que você fica pedalando faz você pensar na simplicidade das coisas e que pouco é necessário para ser feliz. Em todos os lugares em que você para, pessoas conversam com você com simplicidade, parece que você as conhece. Sempre desejam boa sorte são atenciosas e sempre dispostas e ajudar.
Muitos perguntam: “por que você faz isto? Ficar o dia todo pedalando? Com chuva, vento contra, sol a pino por quê?”. Na realidade não sei responder. É liberdade, pois só depende de você mesmo? Pode ser. O fato e que você acaba por se conhecer melhor, conhecer suas limitações, controlar a ansiedade, estimula a criatividade entre outras tantas coisas. E de brinde melhora o condicionamento físico, mantém a sua saúde, acaba por ter mais disposição para enfrentar o dia a dia de trabalho e de responsabilidades.

Ainda há outros, por exemplo: com a bicicleta passei a conhecer melhor meu bairro, minha cidade, conhecer os moradores destes lugares. Nas viagens conheci os municípios ao redor com suas paisagens inacreditáveis e acabo sempre por falar: viajava para tão longe quando aqui mesmo bem perto há muito que conhecer.
Uma coisa tenho certeza. Já contagiei alguns amigos e a lista cada dia cresce mais. Agora mesmo duas grandes amigas estão muito interessadas em fazer uma cicloviagem. Ficaram entusiasmadas com os meus relatos e estamos na fase de planejamento.

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